Libertadores ainda que tardia: os gols de Nonato

Thiago Pereira / 04/10/2018 - 06h00

Ainda consigo ver meus olhos, assim como o de todo um Mineirão, acompanhando estupefato a trajetória daquela bola. 

O chute do genial Nonato foi daqueles que, a princípio, não faria nenhum torcedor deixar de mastigar seu tropeiro, tragar seu cigarro, engolir sua cerveja, naquela noite linda de abril no distante 1994. Aliás: final de noite, já que o jogo, iniciado às 21h30, já tomava seu rumo definitivo.

Não era um estádio lotado que acompanhou a peleja: afinal, tratava-se de um confronto com o Boca Jrs ainda pela fase de grupos da Libertadores. Em Buenos Aires, no mês anterior, La Bestia Negra provara sua força, calando La Bombonera com uma atuação primorosa de Dida e dois gols dos históricos Paulo Roberto (uma falta perfeita, que beijou o travessão e a linha do gol antes de entrar) e de Roberto Gaúcho. Levado por meu pai, lá fomos nós enterrar os argentinos de vez na competição.

Como não existe Cruzeiro x Boca Jrs comum ou tedioso, logo nos primeiros minutos de partida os caras conseguiram achar um gol. Pouco depois, Cerezo faz um lançamento magistral para Nonato que colocou a bola na rede. 

Mas estava impedido.

Pouco tempo depois, Luiz Fernando Flores empataria o certame e iríamos para o segundo tempo igualados no placar. 

Corre a fatia final do jogo. No radinho de pilha do vizinho, escutava a imprensa especializada criticando o então menino prodígio Ronaldo, reclamando de sua atuação apagada, fogo de palha, na partida. A pouco saudosa cornetagem fazia seu trottoir na Pampulha, como era comum naquela época. Inícios de vaias eram ouvidas. 
Como construiu sua mitologia nas adversidades, o ainda não-Fenômeno marcou um gol, bem...fenomenal, driblando meio time argentino e calando todos aqueles que ousam decidir seu destino. Prenuncio do gênio que se tornaria; um dos tentos mais lindos que já fez, sem sombra de dúvidas. 

Seria merecida noite de Ronaldo, se não fosse aquele chute, aquele, do início desta coluna, que fez mais de quarenta mil glóbulos oculares lutarem, silenciosamente, a favor do vento, a favor da curva, a favor da física, a favor da eternidade.

Já no final do jogo, Raimundo Nonato da Silva, o nome mais brasileiro que já vestiu o manto celeste, o pequeno gigante que pode ousar peitar Sorín como o maior lateral esquerdo da história do clube decidiu que, já que o juiz anulara seu suado gol, iria fazer melhor. 

Nonato resolveu fazer o providencial “gol que Pelé não fez”. E quando penso nisso hoje, quase lágrimas nos olhos, me lembro que, diante do lixo que vemos associado recentemente às cores do país, sempre teremos um mito de verdade, um nordestino porreta, que tentará fazer juz à grandeza real de pertencer à esta nação. 

Nonato pensou grande.

De uma bola roubada na intermediária, ele alcançou o círculo central. Um lance ordinário, tanto que o espalhafatoso Montoya, goleiro boquense, se encontrava um pouco adiantando em suas traves. Chutou dali mesmo. A elipse que a bola fez foi desenhada por Deus, que escreve certo por linhas tortas: bola no travessão, goleiro jogado pra dentro do gol. Um “uh” inesquecível veio da torcida, que, de certa maneira, ecoa como um fantasma no estádio até hoje. 

Crentes que somos das linhas tortas, sabemos que os gols de Nonato chegarão as redes, seu itinerário desde sempre, hoje à noite no Mineirão. 

 

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