Lula também não é um democrata

Tiago Mitraud / 20/09/2021 - 10h54

Minha opinião sobre Bolsonaro não ser um democrata é pública desde 2018, quando esclareci os motivos pelos quais ele não teria meu voto. Já deixei clara também minha posição favorável à abertura do processo de impeachment do presidente, devido às suas inúmeras atitudes e omissões que podem ser consideradas crimes de responsabilidade.

A ânsia por tirá-lo do poder, no entanto, está levando muitos a cometerem o mesmo erro que fez com que ele fosse eleito: depositar a esperança de mudanças em uma alternativa que  sequer deveria ser considerada.

Da mesma forma que muitos minimizaram a atuação irrisória de Bolsonaro ao longo dos seus 28 anos na política, que já deixava claras suas posições contrárias às instituições e favoráveis a atos autoritários, muitos estão agora se esquecendo que Lula tampouco é uma alternativa, uma vez que seu histórico mostra que também não é um democrata.

Estes dias ouvi algo curioso: me falaram que "tirando o problema da corrupção, Lula sempre agiu dentro das regras".

Ora, primeiro é absurdo acreditar que é possível minimizar o "problema da corrupção". Deixando de lado os pedalinhos no sítio de Atibaia e as visitas ao triplex, temos que lembrar que os escândalos de corrupção no governo Lula foram, além de tudo, ações completamente anti-democráticas, uma vez que envolveram a compra sistemática de votos no poder Legislativo pelo Executivo. Não é apenas roubo de dinheiro público, o que já seria gravíssimo, mas a utilização desses recursos para corromper os pilares da nossa democracia!

Além disso, precisamos lembrar de outras atitudes antidemocráticas de Lula e de seu governo: como o episódio de cancelamento do visto do jornalista norte-americano Larry Rohter, do New York Times, por matéria sobre um suposto abuso no consumo de álcool pelo Presidente; ou a tentativa de criação de um conselho de jornalismo visando "disciplinar" a atuação dos profissionais no Brasil, além das ameaças antidemocráticas ainda presentes em seu discurso, como a recentemente citada regulação da mídia. Isso sem falar na histórica e ainda presente defesa aberta de ditaduras, como a ditadura cubana.

Por tudo isso, não basta tirarmos Bolsonaro do poder. Não podemos esquecer que o caminho da reconstrução do país passa por elegermos um novo Presidente que respeite realmente nossa democracia, algo que nem Lula nem Bolsonaro são capazes de fazer. Seus históricos de décadas evidenciam isso.

Se Lula realmente fosse um democrata, um estadista que coloca o país em primeiro lugar, bastaria um simples gesto seu: abrir mão da corrida eleitoral de 2022.

Isso faria o próprio Bolsonaro perder força, já que muitos dos que ainda o apoiam, o fazem por receio da volta de Lula. Sem Lula na disputa, poderíamos finalmente parar de procurarmos uma solução anti-alguém e discutir que tipo de líder o Brasil precisa.
Não nos deixemos enganar novamente: ambos são lados da mesma moeda: líderes populistas que colocam seus próprios projetos de poder à frente de qualquer projeto de país.

Faltando um ano para as próximas eleições, ainda há tempo suficiente para construirmos uma terceira via. Não podemos jogar a toalha antecipadamente, e novamente escolher um "menos pior", especialmente quando este também é inaceitável. Nosso dever de viabilizarmos um futuro melhor para o Brasil passa bem longe dos dois.

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