Precisamos repensar o financiamento do ensino superior brasileiro

Tiago Mitraud / 24/04/2019 - 06h00

A educação brasileira apresenta hoje um cenário desolador. A cada 100 crianças, apenas metade sabe ler aos 8 ou 9 anos. Ao final do ensino médio, só 7,3% aprendem o nível adequado de matemática e menos de 27% o de português. E mesmo com estes resultados sofríveis de nosso ensino básico, o Brasil continua privilegiando de forma desproporcional a educação superior, em detrimento da básica.

O investimento por aluno no ensino superior brasileiro é três vezes maior que o no ensino básico. A média dos países da OCDE, que possuem resultados educacionais muito superiores, é de 1,8 vezes.

Estes dados ficam ainda mais críticos quando vemos que o ensino básico atinge 48,6 milhões de alunos, enquanto o ensino superior está restrito a uma pequena parcela do Brasil, atendendo apenas a 8 milhões de estudantes. Quando analisamos o perfil dos que frequentam as universidades federais, percebemos que cerca de 65% das vagas são ocupadas por quem faz parte da faixa dos 40% mais ricos da população (PNAD, 2015).

Transformar este cenário requer uma mudança de foco em nossas políticas públicas de educação, privilegiando o ensino básico. Isso passa, invariavelmente, por quebrarmos alguns tabus e repensarmos o modelo de financiamento do ensino superior no Brasil.

Como acontece em diversos países do mundo, a universidade pública não precisa ser gratuita para todos. Assim como os programas FIES e PROUNI levaram financiamento público a alunos de baixa renda do ensino privado, precisamos discutir e implementar a cobrança de mensalidades para alunos ricos que usufruem do ensino superior público. Não faz sentido recursos do Estado beneficiarem quem não precisa de apoio financeiro.

As universidades públicas brasileiras também precisam se livrar do ranço ideológico que as impede de se abrirem a outras fontes de recurso privado, como patrocínios e financiamentos de pesquisas de empresas e doações de ex-alunos. É desta forma que as melhores universidades do mundo são financiadas, conseguindo entregar ensino de excelência, ao mesmo tempo que são inclusivas a quem não pode pagar por seus estudos.

Medidas como estas permitirão um maior direcionamento de recursos para o ensino básico, sem onerar ainda mais os cofres públicos. Somando à adoção de medidas pela melhora da aprendizagem, nossos alunos poderão concluir o ensino básico dominando mais competências necessárias para ingressar no mercado de trabalho ou para acompanhar com qualidade as aulas do ensino superior.

 

 

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