É preciso falar sobre a depressão

Tio Flávio / 23/08/2019 - 06h00

Um dia desses, dando uma palestra para jovens aprendizes, falei sobre depressão e suicídio, de uma maneira rápida, já que no contexto de uma história que eu havia começado a falar para os adolescentes cabia tal abordagem. Ao final da minha apresentação, uma jovem aguarda todos os colegas que queriam tirar foto e conversar passarem por mim. Ela chega meio tímida e pergunta se aquela fala tinha sido “encomendada” para ela. 

Alguns assuntos que tratamos em palestras caem como uma “luva” para determinadas pessoas, que acreditam que quem nos convidou orientou a abordagem. Falei para a jovem que era para todos, inclusive para mim.

Ela disse que queria me mostrar algo e puxou a manga de sua camisa. Depois puxou a outra manga. Eu olhei assustado a quantidade de riscos, de cortes que havia em seus braços. Boa parte dos cortes já estavam cicatrizados. Não vou negar que assustei, pois eram muitos “talhos”. Ela já se adiantou e falou: “Você acha que isso é tentativa de suicídio?”. Eu, logicamente, achava. Ela me explica: “Na verdade, eu me corto, não para me matar, mas para tentar passar para o corpo a dor que sinto por dentro”.

Os olhos dela tinham verdade e súplica. 

O Brasil tem a maior taxa de pessoas com depressão na América Latina e uma média que supera os índices mundiais. Dados publicados em fevereiro de 2017 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 322 milhões de pessoas pelo mundo sofrem de depressão, 18% a mais do que há dez anos. O número representa 4,4% da população do planeta.

No caso do Brasil, a OMS estima que 5,8% da população nacional seja afetada pela depressão. A taxa média supera a de Cuba, com 5,5%, a do Paraguai, com 5,2%, além de Chile e Uruguai, com 5%. 

Além da depressão, os transtornos de ansiedade e o esgotamento emocional – também conhecido como Síndrome de Burnout – aparecem como os distúrbios mentais mais comuns entre trabalhadores. São desencadeados, muitas vezes, pelo estresse exigido pela própria profissão. Os casos mais frequentes envolvem bombeiros, militares, policiais, jornalistas, altos executivos, médicos, economistas e professores.

O que assusta, além dos números, é que, muitas vezes, assistimos, calados, o desencadear dessas mazelas, sem ao menos nos informar sobre como prevenir em nós mesmos e como ajudar quem esteja atravessando esse momento. Seja na família, no trabalho ou na escola, várias pessoas precisam de ajuda, em súplicas, muitas vezes, caladas, mas que devem ser percebidas. Se você não sabe o que fazer, informe-se, pois muita gente está com sofrimento real, pertinho da gente.
 

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