Coisas tão simples

Tio Flávio / 18/10/2019 - 06h00

Eles chegam por volta do meio dia, pois estudam de manhã e vão trabalhar apenas à tarde. Quando chega perto das 18h, já se preparam para ir embora. 

Não são parecidos fisicamente, têm 14 e 15 anos, mas aparentam ter menos, pela estatura dos dois. Parecem crianças e, de verdade, acho que em alguns momentos eles ainda são. São bem focados, andam juntos e conversam muito um com o outro, numa parceria e cumplicidade.

Ficam ali entre as ruas São Paulo, Gonçalves Dias, Curitiba e avenida Álvares Cabral, no bairro de Lourdes, BH. Vendem bombons e hoje carregam uma caixinha de Natal para as colaborações voluntárias de quem passa de carro e para nos sinais de trânsito.

Eu havia prometido presenteá-los com uma caixa de bombons para cada um, para que pudessem vender nos sinais, mas as viagens e atividades me desviaram da promessa de dias atrás. 
Nesta semana, chegando em casa, passo por um deles e falo que já tinha comprado as caixas de bombons e que era para ele esperar que eu ia buscar. Como eu tinha umas doações que muitos colaboradores me mandam, peguei uma camisa e dois bonés de corrida, além de uma carteira do Atlético Mineiro, que deixaram nesta semana para as nossas ações sociais, e levei para eles.

Ao chegar no ponto, um deles já estava me esperando e o outro trabalhando ali perto. Eles sempre andam juntos, para se protegerem, inclusive. Uma senhora estava próximo e parou. Ficou emocionada, ao ver os meninos ganharem os bombons para trabalhar, e falou: “Eles merecem. Esses meninos não ficam pedindo, são trabalhadores. Estudam, são inteligentes e honestos”.

Eu, no impulso, perguntei: “Eles são seus netos?” Ela me explicou que não, mas os conhece, já que ela também vende balas e bombons nas ruas e os vê sempre.

“Você acredita que uma dona comprou duas caixas de bombom para mim e não me encontrou? Entregou para esses meninos e, no dia seguinte, eles me entregaram. Você acredita que eles guardaram para mim? São bons meninos”, disse a senhora.

Eu perguntei a eles se queriam as camisas e bonés e a resposta foi positiva. Perguntei para que time eles torcem e a resposta foi “Galo”. Tirei a carteira do Atlético, perguntei se queriam, e o mais velho, que eu acho mais sério, deu um sorriso que eu nunca havia visto nele. O outro disse que era atleticano também, mas que não tinha problema, podia dar ao irmão, que ele é quem guarda o dinheiro que faturam.

Como ganhei muitas blusas de corrida de crianças de 6 e 8 anos, eu perguntei se eles têm irmãos. Sim, foi a resposta: São cinco menores que eles. Expliquei que em um próximo encontro eu entrego as camisas menores.

A senhora, que ainda continuava ali, simpática, me disse que ficou feliz só de ver que eles ficaram felizes. Duas caixas de bombos, uma camisa, dois bonés e uma carteira do Galo, o que é isso? Para mim, doações preciosas, mas que a gente recebe com frequência. Para eles, a fonte de renda para a família e de alegria para os dois.

Duas outras coisas me chamaram a atenção: Ao receber a carteira, o mais velho tirou notinhas de R$ 2 e já guardou ali dentro, ao passo que o outro já vestiu a camisa por cima da sua e ficou com ela, maior que ele, mas recebida com alegria. E, ao perguntar se tinham irmãos, eles falaram a idade de cada um dos cinco, na esperança de chegarem em casa não só com presentes para eles, mas para todos.

 

 

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