Contos e sonhos da infância

Tio Flávio / 01/11/2019 - 06h00

Tio Flávio

Toda vez que vou a alguma casa de acolhimento, sempre saio com a sensação de que algo mais poderia fazer por aquelas crianças e adolescentes que ali estão. Chego aos lares que já conheço há mais tempo e os meninos e meninas vêm perguntando: a gente vai sair hoje?

No Tio Flávio Cultural, temos diversos grupos de ações contínuas nas casas que chamávamos de abrigos ou orfanatos. A cada mês, uma atividade diferente, mas as que eles mais gostam são as que os tiram dali, levando os para parques, cinemas, campos de futebol e até ações sociais de outros grupos que temos em lares para idosos ou para crianças com paralisia cerebral.

Em cada olhar, dá para ver perfeitamente que, apesar de crescerem fisicamente nas casas de acolhimento, muitos deles ainda têm lá dentro um olhar de criança. Parece que é um tempo da sua vida que não foi vivido, devido a tantas situações para as quais essas crianças foram conduzidas.

Um dia, uma psicóloga e uma coordenadora me deram uma historinha escrita pela Larissa de Cássia, que nos autorizou a publicar com esse nome que ela própria escolheu. Nela, tive a certeza: há ainda muita infância a ser resgatada em todos nós, que, às vezes, foi aprisionada, por circunstâncias diversas, mas que ainda está ali. Vamos amadurecer, logicamente. Mas o dia em que a criança desaparece em nós, infelizmente, a esperança vai junto.

A historinha? Bom, ela é assim:

“Era uma vez um rei que tinha três filhos. Dois deles eram inteligentes, sensatos e bonitos, mas o terceiro era mais quieto e responsável e era chamado de Richard. Quando o rei ficou velho, fraco e enrugado, começou a pensar em sua morte, mas a coisa que o deixava mais preocupado era com qual dos três filhos ele iria deixar a sua fortuna.

Então, Vossa Majestade falou: – Para aquele que me trouxer o melhor vinho eu irei deixar a minha fortuna. 

Para que não houvesse discussão entre os irmãos, o rei soprou três folhas de um ipê e falou: – Para onde voarem, é para lá que ireis. A primeira voou para o Oeste, a segunda para o Leste e a terceira, para a frente, mas não foi longe. Então, um foi para a esquerda, o outro para a direita e eles zombavam do Richard, que iria ficar lá mesmo no lugar onde a folha caiu. 

Richard sentou-se no chão e começou a chorar, mas, ao olhar à sua esquerda, viu a porta de um alçapão. Ele se levantou, abriu a porta e deu de cara com outra porta. Mas desceu as escadas e ouviu vozes dizendo: – Abre-te agora. E ele viu um enorme e gordo esquilo, rodeado de espinhos. Então, o esquilo o perguntou o que queria. – Eu gostaria de dar o vinho mais fino ao meu querido e amado pai.

Então, ele chamou seu filho esquilo, que trouxe o melhor e mais fino vinho. Richard agradeceu e voltou ao castelo, feliz e contente.

O rei avaliou os três e ficou admirado ao ver o do Richard. Então, Vossa Majestade deu a sua sentença: – Minha fortuna ficará para o caçula.

Muito descontentes, os irmãos não davam sossego ao pai, que impôs outra condição: – Herdará o meu reino quem trouxer o anel mais belo para mim. Então, o rei soprou as folhas e lá se foi um para Oeste, outro para Leste e o Richard, para a frente e voltou ao alçapão. Pediu ao senhor esquilo, que pegou uma linda caixa de brilhantes e, mais uma vez, o rei deu sua herança ao filho Richard. Feliz da vida, ele herdou tudo que era do seu pai. Conquistou uma linda moça, se casaram e tiveram uma linda menina de olhos azuis”.

A Larissa tem apenas 11 anos. Vai crescer, mas tomara que persevere em seus sonhos, guiados pela criança que torcemos que (sobre)viva nela.
 

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