Eu quero comer um 'trem' ali

Tio Flávio / 20/12/2019 - 06h00

A Dôra Borges é uma amiga e professora que lecionou comigo em um centro universitário em Belo Horizonte. Um dia desses, vi uma postagem numa das suas redes sociais e pedi a ela autorização para reproduzir aqui.

Ela decidiu interromper a sua vida profissional e acadêmica em BH para voltar para a cidade de Cássia, no Sul de Minas, onde vive sua família. O pai tem 94 anos e a mãe, 85. Aos 18 anos, Dôra veio para a capital mineira, passando sua vida adulta mais distante da família. Hoje, ela explica que vive numa casa, no meio do verde, ouvindo pássaros, trabalhando num negócio da família e estando mais perto dos pais.

O texto que me chamou a atenção é real, vivenciado pela Dôra. Eu o achei bem profundo e que merece uma bela de uma reflexão.

“Estava eu na fila do caixa rápido de um banco e, à minha frente, havia um velhinho com um rapaz que deveria ser seu neto, talvez, ou apenas um acompanhante. Gente bem simples no trajar e no jeito de ser.

Com a ajuda de um funcionário do banco, terminaram de realizar a operação que desejavam fazer e, pelo jeito e data, era o saque da aposentadoria.

Eu terminei de usar o caixa enquanto eles se ajeitavam para sair do banco.

E como demoraram um pouquinho, acabamos saindo juntos.

O rapaz seguiu à frente, meio rápido; e o senhor, com sua bengala surrada, calça bege meio caindo, deixando à vista um pedaço da fralda descartável (com certeza estava sofrendo de incontinência urinária), e camisa branca desalinhada, o seguia com um pouco de dificuldade, sem a ajuda do jovem apressado.

Do lado de fora, o velhinho disse com voz firme e, acredito que com um desejo já programado:

- Eu quero comer um “trem” ali.

E apontou para uma pastelaria ao lado do banco, com umas mesinhas de fora.

O rapaz respondeu meio severo:

- Não vai dar, estou com pressa. E foi atravessando a rua em sentido a um carro popular e já mais velho, parecendo que veio da roça, pelo barro respingado na lataria.

Aguardou o velhinho atravessar a rua, contrariado, tentando se apressar, e, automaticamente, o ajudou a assentar no banco de trás do carro.

Assistindo àquela cena, me deu um aperto forte no coração.

Será que o que aquele jovem tinha para fazer era tão importante assim que não poderia realizar o desejo (ou matar a fome) do velho senhor?

Ele teria outras oportunidades para realizar essa vontade?

Ainda olhei para trás na esperança de o jovem rapaz mudar de ideia.

Mas ele deu partida no carro e desapareceu no final daquela rua movimentada...

Reflexão:

O amor deve ser mais valioso do que o tempo, porque, se temos amor, com certeza, teremos tempo. A vida, muitas vezes, não irá nos dar a chance de voltar atrás e fazer o que deveríamos ter feito naquele momento e não fizemos.”

Obrigado à Dôra Borges por nos presentear com este relato.

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários