Minha mãe envelheceu e eu não vi

Tio Flávio / 08/11/2019 - 06h00

Minha mãe sempre foi muito ativa. Enquanto meu pai viajava a trabalho, como propagandista de uma indústria farmacêutica, ela dava aulas numa escola pública, nos ensinava as atividades da escola, dirigia para cima e para baixo, levando-nos ao médico, dentista e outros compromissos. Era ela quem fazia as compras da casa, cuidava das rotinas domésticas e preparava, diariamente, as aulas que daria na escola.

Uma mulher ativa, decidida, dedicada ao que se propunha a fazer. Uma força sem igual, que, muitas vezes, teve que aprender, pelas circunstâncias, a esquecer o choro e ir resolver os problemas que se desenhavam. Na verdade, não a víamos chorar, e nem sei se fazia isso sozinha.

Quando ela já estava aposentada, muito nova, inclusive, tivemos um revés na vida e perdemos materialmente tudo que havíamos construído. Foi preciso recomeçar em Alagoas, terra do meu pai, para onde nos mudamos, de ônibus, em uma viagem de 32 horas, infindável para quatro crianças e uma mãe. Meu pai nos esperava lá, na rodoviária de Maceió. Não foram dias fáceis, mas, só de ter a minha mãe por perto, com aquela força, que só mesmo a palavra mãe define, era muito mais confortável.

Voltamos a Minas, continuamos e concluímos os estudos. Minha mãe continuava a lecionar e meu pai se virava como podia. A vida em seu ritmo, mas ainda era ela o alicerce da família.

Depois dos filhos formados, ela entra na faculdade. Passa, aos 69 anos, em Normal Superior e forma-se aos 72, tendo recebido o diploma das minhas mãos, filho dela, mas professor da faculdade em que ela estudou. Ganhou como prêmio de melhor aluna uma pós-graduação.

Meu pai adoeceu, teve um câncer, e ela não pôde cursar a pós-graduação. Já havia perdido a carteira de motorista, pois não mais dirigia, mas renovou sua habilitação, para levar meu pai às consultas médicas e acompanhá-lo em suas necessidades. No hospital, chegou a ouvir da médica, sem muitos rodeios ou cuidados, que meu pai teria que amputar a perna. Nesse dia eu vi a fragilidade que há em todos nós e que não seria diferente em minha mãe.

Meu pai faleceu, amparado por todos nós. Minha mãe caiu, sofreu, sentiu a perda do seu companheiro, mas, com o tempo, se levantou, começou uma atividade social contínua numa creche, seguiu com sua fé e com os cuidados com os filhos, que já não moravam mais com ela, mas que, com frequência, eram convidados a um almoço surpresa de domingo.

Dias atrás, recebo uma ligação do meu irmão, dizendo que minha mãe estava em casa, sem falar coisa com coisa, sem reconhecer ou lembrar de onde estava. Depois de um dia no médico, nós caímos na real: minha mãe envelheceu. Aquela mulher forte, ativa, é uma mulher, que sente a idade, já que está com 83 anos, e que luta para ficar bem.

Hoje, ela tem seguido um ritmo diferente, com seus medicamentos, mas cuidando de uma cachorrinha que ganhou, dormindo na casa dos filhos ou em sua própria, até se divertindo, pois, mais do que nunca, depois do susto, começamos a bajulá-la mais. 

Culpa de não ter estado mais perto, de não ter dado mais abraços, de não ter falado mais coisas com ela? De forma alguma, pois culpa não ajuda, apenas nos definha e mata. O que queremos, agora, é aproveitar a nossa mãe. E ela a todos nós.

 

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