Não podemos esperar mais

Tio Flávio / 11/10/2019 - 06h00

“Não existem criaturas irrecuperáveis, mas métodos inadequados”, afirmava amorosamente a assistente social gaúcha Maria Ribeiro da Silva Tavares, que em 1936 conseguiu autorização de trabalho externo para 36 presos e a permissão para abrigá-los em sua própria casa, recém-saídos do Presídio Central, em Porto Alegre, um dos piores do país.

Em setembro de 2014, Maria Tavares faleceu e vários homens foram ao seu velório com as suas famílias, que durante os períodos mais difíceis e desafiadores das suas vidas receberam o olhar caridoso e carinhoso dela.

Apesar dos alertas de vários conhecidos, que por muitos anos disseram a Maria que ela se arrependeria, a gaúcha morreu rodeada e amparada por pessoas que a amavam e respeitavam, a maioria saídas do sistema prisional e sem muitas perspectivas de trabalho digno.

Perguntada, certa época, como ela fazia para lidar com pessoas que eram consideradas perigosas, a resposta foi: “Diálogo, respeito e confiança”. Esse conselho dado por Maria Tavares serve para qualquer relação, seja empresarial, social, familiar. O que, muitas vezes, temos visto se perder é justamente isso, essa base, que é uma referência na criação e manutenção de relações em qualquer ambiente da vida.

A principal causa da delinquência, no ponto de vista da Maria Tavares, são os lares desajustados, e ela ainda alertava para algo tão atual: Devemos salvar a infância, cuidar para que as crianças estudem, tenham carinho, sejam educadas.

Tudo isso que foi estudado e praticado pela assistente social ecoa até hoje, em momentos turbulentos como o que vivemos, com uma crescente agressividade das pessoas, uma epidemia de depressão e índices reais e assustadores de automutilação e suicídio.

A família é importante ator desse processo de resgate de valores, com certeza. Não há de se deixar para a escola fazer tudo, pois ela não está conseguindo sozinha. Mas a situação torna-se mais crítica quando conhecemos a fragilidade das famílias, o quanto elas próprias precisam ser amparadas e fortalecidas. 

Precisamos de políticas públicas com justiça social, que sejam efetivas e não eletivas. Porém, o que se faz urgente é que a sociedade se mobilize e pense estratégias para o resgate do que a Maria Tavares apregoava e vivia: Diálogo, respeito e confiança. Algo que nos parece distante, mas que uma senhora, aparentemente frágil, fez com maestria. 
 

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Comentários