Tem presente?

Tio Flávio / 27/12/2019 - 06h00


No ano de 2017, reunimos um grupo de amigos e fizemos um jantar especial para homens, mulheres e crianças que vivem nas ruas e utilizam os serviços do abrigo São Paulo, no bairro Primeiro de Maio (BH), para pernoitarem, além de terem acesso a banho, jantar e café da manhã.

A alegria de todos nós era muito grande, pois a data escolhida naquele ano foi o dia 24 de dezembro, justamente a véspera de Natal, em que muitos, ainda que tenham família, passariam num abrigo, sozinhos, apesar das dezenas de assistidos que também estariam por ali.

Em 2019, atendendo a um convite de um grupo de amigos que conheci na Fundação Dom Cabral, juntamente com amigos do Grupo de Adoção de Santa Luzia, resolvemos fazer a noite festiva no dia 23 de dezembro.

Logo no início da tarde, a Roberta Orzil, uma das organizadoras do nosso grupo, chegava para enfeitar de balões e arranjos a entrada e o refeitório. Mais tarde, chegaríamos eu e a Ana Carolina Almeida, na sequência, a Márcia Bretz e família, a Izabella Castro, os familiares da Roberta e da Ana Flávia (Gada), incluindo uma fotógrafa profissional. 

Colocamos os chocotones, além dos refrigerantes individuais, doados também por vários amigos, de um lado da porta de entrada do abrigo. Do outro lado estavam caixas com kits de higiene pessoal montados com as amenidades de hotéis (com certeza, ali estavam várias pessoas representadas).

Ao entrar, cada assistido era surpreendido com um monte de aperto de mão, abraços e as lembrancinhas que fizemos com tanto carinho. Dali ganhamos agradecimentos, sorrisos, bênçãos, abraços e tantas histórias.

Os músicos Balu e Fernando chegaram para compor o grupo. Instalaram seus instrumentos no refeitório e iniciaram as músicas, num show que iria até às 19h30, quando começaríamos a servir o jantar, mas que acabou por volta das 21h, já que os assistidos pegavam o prato de comida, mas não arredavam o pé do local, inclusive, cantando com os músicos.

O Daniel, da sorveteria Sol e Neve Jaraguá, chegou com sua mãe e as doações de sorvetes. Fomos entregando refrigerantes e, em seguida, os deliciosos sorvetes de sobremesa, servidos à vontade. Tudo em plena harmonia com as cozinheiras e as duas equipes de trabalho do abrigo São Paulo (da Sociedade São Vicente de Paulo), comandadas pelo coordenador Léo.

Dentre tantos adultos, tinha apenas uma criancinha no abrigo naquele dia, uma menininha acompanhada da sua mãe. De repente, chega mais uma mãe, com uma menina no colo e seus dois irmãozinhos. Comeram chocotone, guardaram os refrigerantes individuais, tomaram sorvete e se divertiram. Ao encerrar o jantar, Kenny, um membro da nossa equipe, me chama e fala: as crianças perguntaram se tem presente. Eu tinha colocado uns chocolates e bonés na minha mochila e resolvi dar a eles. 

Fui lá, conversei com a mãe e pedi desculpas, pois havia esquecido desse detalhe importante e que teria boné para os meninos e nada para a menininha. Ela falou que não precisava, mas os olhos dos dois irmãos eram de expectativa.

Poucos dias atrás eu tinha lido uma postagem do Kdu dos Anjos, do projeto Lá da Favelinha, que dizia que uma mãe do aglomerado da Serra (BH) havia agradecido a eles a entrega de presentes para as crianças da comunidade e que ela, lembrando a sua infância, falou que em todo Natal esperava um brinquedo que não vinha.

Naquela hora me veio isso à mente: criança gosta de brinquedo, mas eu não tinha nada ali.

Abracei os meninos e fui me arrumar para ir embora. Já com minha mochila nas costas, passo pela saída e o menino maior vem em minha direção e pergunta: será que você troca esse boné por uma bola ou um boneco? E eu tive que explicar que tinha esquecido de trazer, senão, trocaria (na verdade acrescentaria) o presente dele.

Lógico que saí dali feliz com o resultado da ação, tanto para eles quanto para a equipe do abrigo e para nós, voluntários. Foi uma noite de música boa, comida deliciosa, refrigerante e sorvete sem limites, abraços e agradecimentos, além do rico aprendizado com a história de vida dos que se abriram para a gente. Mas, uma coisa é certa: criança gosta de brinquedo. 

São filhos tão novos e com tantas experiências já vividas: dormir na rua, numa quase véspera de Natal ter que ceiar num abrigo com a família (e ainda bem que tem o abrigo), ver o pai e a mãe desempregados, numa luta para conseguirem as coisas com dignidade. O brinquedo é mais que simbólico, representa a doce lembrança de que ainda são crianças. E o pedido vindo do mais velho, que acaba assumindo um papel de responsabilidade em ajudar a cuidar dos outros, é ainda mais forte. 

Neste Natal, ajudamos diversos projetos a conseguirem brinquedos para distribuírem às suas crianças. Isso gera uma alegria de um lado. Mas, aquele olhar daquela criança em específico eu não consegui esquecer.

Se nós vamos conseguir encontrar essa família eu não sei. Mas, com certeza, vamos tentar.

 

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