Tudo tem o seu tempo

Tio Flávio / 30/08/2019 - 06h00

Quando acabei a primeira palestra na Escola Estadual Dr. Paulo Diniz Chagas, em Belo Horizonte, os alunos foram saindo para ceder lugar à próxima turma. Já sentando, esperando o novo público, volta um estudante e fica em pé na minha frente e me pergunta: “O que te faz vir falar para este monte de gente sobre ajudar as pessoas, sendo que algumas se empolgam na hora e depois esquecem, alguns concordam e depois voltam a fazer as mesmas coisas. Você acha que muda alguém?”

Esse menino fez uma das mais belas reflexões sobre o nosso papel de palestrantes. Não basta falar tudo aquilo, mas é preciso vivenciar e viver o que se fala. De longe, é impossível saber a dor de uma mãe que não descobriu como proceder com um filho que conheceu e se entregou às drogas, nem daquela família que recebeu a notícia do câncer em sua filha ainda criança.

Distante não se pode entender o impacto de uma notícia de que a hemodiálise, em três sessões semanais, é o que vai te manter vivo, ou a quimioterapia será sua rotina dali em diante.

Creio que as pessoas só vão se sensibilizar quando algo acontecer pertinho delas e as tocar ou num momento em que sua visão de mundo se amplia e ela descobre que não está sozinha, mas que vive numa sociedade, cheia de erros, de injustiças, e que, por isso, precisa de novos olhares.

Uma palestra pode até tocar, mas não muda ninguém. Quando trazemos abordagens vivenciais, o que queremos não é motivar, mas é inquietar ou descortinar um mundo que existe, que está ali, ao lado, e que pode ser melhor, se cada ser humano se permitir melhorar.

Não há verdades absolutas, há aprendizados constantes. É interessante como o amadurecimento nos amplia a visão de nós mesmos, da família, da sociedade. Como valores vão sendo repensados.

A minha resposta ao jovem é: “Não, eu não mudo ninguém. Só quem tem essa chave é a própria pessoa. Mas eu já vi muita mudança, a seu tempo. Por isso, não quero que o que eu falo seja verdade para os outros. Essas são as verdades que eu conheço hoje, em que eu acredito, mas elas vão mudando a partir do momento em que eu também mudo. E, de tudo isso, uma coisa eu aprendi: Há tempo para tudo”.

Descobri que o voluntariado não deve ser uma possibilidade de esquecer meus problemas, de descobrir que o outro sofre mais do que eu, de fazer um pouquinho pelos outros ou de ser bom.

É, na realidade, a melhor maneira de conhecer pessoas e suas histórias e, com isso, quem sai mais rico não é quem recebe, mas, sim, quem compartilha. 
 

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