A posse do presidente que semeia o ódio

Wadson Ribeiro / 03/01/2019 - 06h00

A cerimônia de posse de Jair Bolsonaro deixou claro qual será o rumo do seu governo. O presidente não vai tirar a fantasia que usou como candidato e em seu discurso no parlatório manteve o tom belicoso, raivoso, recheado de ódio e preconceitos que na campanha foi determinante para sua eleição. Ao contrário de todos os seus antecessores, que em eventos similares buscaram a paz e a união nacional, o militar deixou claro que vai apostar na divisão do país e na perseguição aos adversários políticos. No Congresso Nacional, seu discurso foi um pouco mais institucional, mas as intimidações foram repetidas.

O tom raivoso e falacioso serviu para levá-lo a sentar na cadeira presidencial, mas não será capaz de sustentá-lo. Ou Bolsonaro dá respostas rápidas aos problemas da nação que prometeu resolver, ou enfrentará a fúria daqueles que enganou. As pesquisas mostram que a maioria da população tem uma expectativa otimista em relação ao futuro governo. Isto não é novidade, geralmente os brasileiros dão um crédito a governos que se iniciam.

Mas a lua-de-mel dura pouco. Ações concretas de melhora da vida do povo, principalmente no campo econômico, serão cobradas em poucos meses.
Fora a oratória criminosa, seus primeiros atos como presidente são a expressão de um governo contra o povo. A começar pela foto do seu ministério.

Apenas duas mulheres, uma que é representante dos latifundiários da bancada ruralista e outra que representa o fundamentalismo religioso, que na sua pasta já prometeu implementar uma política contra a luta histórica das mulheres. Outro aspecto que chama atenção é a disparidade geográfica. Nenhum ministro vem do Norte ou Nordeste, mostrando o preconceito que o novo governo tem com essas regiões.

A participação popular na posse não foi a alardeada pela maioria da imprensa nos dias que a antecederam. Pouco mais de 100 mil participaram, de acordo com um levantamento do GSI (Gabinete de Segurança Institucional). O número ficou abaixo do especulado, que afirmava a participação de 250 mil e 500 mil pessoas.

E por falar em imprensa, os jornalistas que cobriram a cerimônia de posse foram os que mais sofreram. Alguns dos profissionais presentes afirmaram se tratar do dia mais humilhante da história do jornalismo brasileiro. Eles foram tratados como criminosos, ficaram confinados em “cárcere privado” por mais de 6 horas, sem direito à alimentação, acesso a banheiros e sentados no chão, pois nem cadeiras haviam. Algumas delegações de correspondentes estrangeiros se retiraram em protesto por tamanha humilhação.

Pior do que o discurso, são as ações do novo governo. Na noite de segunda-feira, foi assinado o decreto presidencial fixando o valor do salário mínimo para 2019 em R$ 998. A previsão orçamentária, deixada pelo Congresso, previa que o aumento levaria o salário para R$ 1.006. O decreto marca o fim da chamada política de valorização real do salário mínimo.

Em 2007, o então presidente Lula criou uma política de valorização permanente do salário mínimo que se estenderia até 2023. Uma estruturação de longo prazo para a recuperação do valor do piso nacional. Ou seja, são os mais pobres que começaram a pagar a conta da política elitista e antipopular de um governo de extrema direita. 

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