Zema descreve Minas como uma peça de ficção em suas entrevistas

Wadson Ribeiro / 02/09/2021 - 13h22

Ouvindo e depois lendo atentamente a entrevista exclusiva do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a um importante veículo de comunicação nacional essa semana, tive a impressão que o estado e a gestão descritas por ele faziam parte de uma peça de ficção, sem nenhum lastro com a realidade concreta que o estado infelizmente vivencia. As propagandas oficiais e o discurso do governador apresentam um cenário bonito nas telas, mas cruel na realidade para a maioria dos mineiros. A gestão é ruim, a economia vai mal e a corrupção está exposta com a CPI da Cemig.

O compromisso assumido durante a campanha de modernizar a gestão do estado e de fazer a economia voltar a crescer não passaram de promessas eleitorais. A economia mineira não vai bem e o PIB caiu 0,2% no primeiro trimestre de 2021, ficando abaixo da média nacional em setores como o agronegócios e a indústria de transformação. Superando a média nacional vemos apenas o setor da indústria extrativa mineral, aliás, uma área que está no DNA do estado e que tanto carece de regulamentação, melhor retorno aos municípios e aos cidadãos. No mesmo período, o estado bateu o triste recorde com a taxa de 13,8% de desempregados, ou seja, quase 1,5 milhão de mineiros e mineiras sem ocupação, o maior índice nos últimos oito anos. Esse fato tem contribuído para que mais de 25% da população do estado encontre-se em situação de pobreza ou extrema pobreza. São milhares de famílias com renda de até R$ 450 por mês.

Do ponto de vista da gestão do estado, o governo deve R$6,8 bilhões em repasses na saúde para os municípios, me refiro apenas à dívida da gestão atual do governador Romeu Zema. Nos anos, de 2019 e 2020, inclusive em plena pandemia, aplicou abaixo dos 12% da receita do estado em Saúde, o que é ilegal. Minas Gerais é o estado que proporcionalmente menos investiu em Saúde no último ano. Na educação, outra área chave de qualquer gestão, além de repetir o exemplo da Saúde e investir menos do que o previsto na legislação, que é de 25% das receitas, a grande proposta do governo é jogar para os municípios a responsabilidade do ensino fundamental, o que vai diminuir ainda mais os recursos da educação e, consequentemente, a qualidade do ensino. Na sanha desesperada por cortar investimentos em área estratégicas, Zema ataca a saúde, a educação, os serviços públicos, deforma a previdência do estado e torna o estado menos presente e eficiente.

Além de não apresentar respostas para a economia e desorganizar a gestão em áreas estratégicas, a corrupção envolvendo a Cemig e membros do partido Novo, próximos ao governo, demonstra uma outra faceta do jeito “novo” de governar. O governador disse não ter conhecimento das contratações bilionárias e sem licitações para favorecer membros e amigos do partido Novo.

Mas somente a IBM foi contratada por R$ 1,1 bilhão, por inegibilidade, sem concorrentes, para implantar um sistema conhecido como Omnichannel. Os dirigentes da empresa deveriam sair presos e ir direto para cadeia tamanho desrespeito com o dinheiro público. O partido Novo exerce uma espécie de gestão paralela na empresa e a CPI que investiga essas denúncias de corrupção não pode se calar. É preciso coragem e independência para mostrar aos mineiros e ao Brasil o mal que faz à sociedade quando os interesses privados se apoderam do Estado. Até agora, Zema criticou os deputados da CPI, mas não teceu uma crítica aos maus feitos cometidos pelos diretores da entidade indicados por ele.

Às vezes aquilo que se apresenta como o ‘novo’ é na verdade o que há de mais atrasado, velho e conservador na sociedade. Romeu Zema, que chegou ao poder dizendo representar a ‘nova’ política, chega na reta final de seu governo abraçado com Aécio Neves, Bolsonaro e os políticos mais conservadores do estado. Quem quiser se enganar que se engane, mas Zema não passa de um “museu de novidades”, como diria Cazuza. Sua entrevista, além de evasiva, descreve uma realidade de Minas que só existe nos devaneios do governador.

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