Samuel Lloyd 

Na esteira do assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis, vimos crescer nos Estados Unidos manifestações antirracistas que rapidamente chegaram ao Brasil. Por aqui, os posicionamentos contra o racismo começaram a se espalhar por grupos sociais, entidades esportivas e empresas privadas. Na mesma semana, uma interessante aproximação de torcidas organizadas de futebol, pelas redes sociais, em prol da democracia, unindo cores e bandeiras de diferentes agremiações. Vimos grupos de clubes rivais caminharem lado a lado em São Paulo, ganharem o apoio de torcidas em Belo Horizonte e outras capitais, e o movimento crescer e tomar a Av. Paulista. Movimentos distintos que, historicamente, sempre andaram juntos e conversam com a história do esporte.

Já se passaram quase 60 anos do famoso discurso de Martin Luther King, “I have a Dream”, em Washington. “É a hora de realizar as promessas de democracia. É a hora de nos levantarmos dos valores obscuros e desoladores da segregação para seguir o caminho luminoso da justiça racial”, disse o pastor. O que mudou nesse mais de meio século? No esporte, muito pouco. Vozes que sofrem com o racismo e se levantam contra a intolerância, muitas vezes, são silenciadas. Tommie Smith e John Carlos, atletas dos 200 metros rasos dos Estados Unidos, protagonistas do mais emblemático gesto dos Jogos Olímpicos, o punho cerrado vestindo luvas negras e a cabeça baixa, quando receberam as medalhas de ouro e bronze na Olimpíada do México, foram expulsos dos jogos. Em 2016, Colin Kaepernick, atleta de futebol americano, se recusou a ficar de pé durante a execução do hino americano em protesto contra o tratamento que os negros recebem no país. Ajoelhou-se durante o hino e nunca mais conseguiu um contrato na NFL. O gesto foi considerado uma grande afronta a um dos mais importantes símbolos do patriotismo americano. Fora do esporte profissional, o quarterback virou um grande ativista na luta contra a violência racial e virou estrela em uma campanha da Nike que comemorou os 30 anos do lema  “Just do it”.

No futebol, esporte popularizado por grandes atletas negros, constantemente surgem manifestações racistas, principalmente vindas das torcidas. Tinga, Aranha, Taison, Daniel Alves são apenas alguns exemplos recentes de famosos jogadores brasileiros que sofreram com a intolerância pela cor da pele. O Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que monitora e divulga casos de racismo no esporte, identificou, somente em 2018, 52 casos de crimes raciais no futebol brasileiro. Ao verificar esses dados, entendemos a importância das torcidas dos clubes brasileiros se manifestarem contra o crime de racismo e a urgente necessidade de empresas agirem, assim como fez a Nike, por exemplo, no caso Kaepernick. Importante citar que o caso do atleta da NFL não foi o único posicionamento da marca. Após os recentes acontecimentos de violência racial gestados em Minneapolis, a Nike também se posicionou e foi seguida pela grande concorrente, a Adidas, que ao invés de produzir uma campanha, interagiu com a marca americana.

Empresas conectadas ao que acontece em sua volta e causas sociais é um movimento contemporâneo. Se o racismo está escancarado, muito mais que somente se posicionar, é preciso que as marcas escutem o que pessoas negras — a maior parte da população brasileira — têm a dizer. É o tão falado e legítimo “lugar de fala”. “Pensar lugar de fala seria romper com o silêncio instituído para quem foi subalternizado”, é o que cita a filósofa, mestra, pesquisadora e mulher negra Djamila Ribeiro, em sua obra “O que é lugar de fala?”.

Entender os processos que levam a essas manifestações e levar para dentro das corporações as discussões em torno de temas fundamentais — como o racismo — é um caminho a ser seguido por líderes de empresas que querem realmente ser diversas e plurais. Por isso, diversidade e pluralidade são compromissos do Mineirão desde que o estádio se tornou signatário da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, em 2016. Ser parte de uma profunda mudança na gestão mundial de negócios e assumir a responsabilidade de contribuir para o alcance da agenda global de sustentabilidade — entenda sustentabilidade no sentido amplo da palavra — é um dos gratificantes desafios do estádio.

Atento ao momento em que vivemos, na noite de 1º de junho o Mineirão apagou as suas luzes. A emblemática fachada ficou às escuras para lembrar da necessidade de se combater o racismo. Impossível nos calarmos e não basta não ser racista. É urgente sermos, acima de tudo, antirracistas. Vidas negras importam.

*Diretor Comercial no Estádio Mineirão e na Urbia Gestão de Parques