Wadson RibeiroWadson Ribeiro é presidente do PCdoB-MG e foi presidente da UNE e secretário de Estado

Bolsonaro quer o Enem à sua imagem e semelhança

17/11/2021 às 16:09.
Atualizado em 05/12/2021 às 06:16

Faltando pouco mais de uma semana para a realização do Enem, uma debandada de servidores ameaça mais uma vez, durante o governo Bolsonaro, a realização do exame. Desta vez, a denuncia é de que a direção do instituto estaria pressionando os servidores e exercendo uma interferência indevida no conteúdo das provas, chegando ao ponto de haver supressão de questões que seriam aplicadas no exame do próximo domingo. Mais uma vez, o governo age para desmoralizar o Enem e atacar a educação brasileira, numa escalada conservadora e anticientífica.

O principal problema a ser resolvido não se localiza em criar fantasmas ideológicos para justificar a péssima gestão do governo e criar um Enem “chapa branca”, mas sim encarar o fato concreto de essa edição ser a menor em número de participantes desde 2005, com 3,1 milhões de pessoas inscritas. Mais da metade dos jovens entre 15 e 29 anos tiveram suas rendas afetadas durante a pandemia, fato que fez com que muitos desses jovens abandonassem a escola e buscassem algum tipo de renda. Além disso, o baixo nível de ajuda do Ministério da Educação para que Estados e municípios pudessem manter escolas abertas ou mesmo ofertassem algum tipo de ensino, como o remoto, impactou na absorção de conteúdos, gerando uma formação deficitária e desestimulante para grande parte desses jovens. Sem falar, é claro, na taxa de inscrição de R$ 85 que é proibitiva em tempos de crise econômica e desemprego.

Mas, ao contrário disso, o governo Bolsonaro - através do ministro da Educação, Milton Ribeiro, e do presidente do Inep, Danilo Dupas - está preocupado com o conteúdo pedagógico das provas, leia-se, proibir questões que, de acordo com o governo, possam ser “sensíveis”. Em 2019, o ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, criou o Banco Nacional de Itens do Enem, uma espécie de censura prévia que teria a função de filtrar aquilo que poderia constar na prova. A  iniciativa não prosperou pela ação do Ministério Público que, na época, desaprovou essa aberração. Questionado pela exoneração dos 37 funcionários do Inep, que saíram alegando interferência política do governo em questões técnicas do órgão e fragilidades de gestão, Bolsonaro limitou-se a dizer que, a partir de agora, o Enem começa a ter a cara de seu governo. Ou seja, não se fala em ditadura militar, violência contra as mulheres, racismo estruturante, mazelas sociais e econômicas, tudo que possa parecer contradição com as práticas de sua gestão deve estar fora das provas. 

Os ataques à educação pública brasileira desferidos por Bolsonaro fazem parte de um projeto político de poder perseguido por seu grupo. Não interessa aos atuais mandatários uma educação emancipadora e laica, capaz de fazer nossos jovens desenvolverem habilidade de raciocínio lógico, terem acesso ao mundo da ciência, desenvolverem capacidade de abstração e criatividade, terem contato com as artes, uma educação verdadeiramente emancipadora. A educação básica, por exemplo, que deveria ter recebido atenção especial do governo em período de pandemia, teve o menor orçamento dos últimos dez anos, se equiparando a valores de 2011. Em 2021, o Ministério da Educação recebeu o maior corte orçamentário entre todas as pastas, representando sozinho um terço de tudo aquilo que foi bloqueado, R$ 2,7 bilhões. A única proposta que Bolsonaro tem para a educação básica são as escolas cívico-militares, uma proposta inviável pelo seu custo e desproposital pelo seu conteúdo pedagógico.

Em nome de uma universidade para poucos, Bolsonaro tenta destruir um instrumento eficiente e democrático de acesso às universidades que, aliado às políticas de cotas, mudou a cara e a coloração das universidades. Ao contrário dos sistemas clássicos de vestibulares, o Enem permite maior equidade e descentralização na ocupação das vagas nas instituições de ensino.

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