Blog do LindenbergCarlos Lindenberg, jornalista, ex-comentarista da BandMinas e Rádio Itatiaia, e da Revista Exclusive. Autor do livro Quase História e co-autor do perfil do ex-governador Hélio Garcia.

Prisão de ex-ministro Milton Ribeiro compromete campanha de Bolsonaro

Publicado em 23/06/2022 às 06:00.

Pode até não haver maiores desdobramentos, mas a prisão ontem do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro tem tudo para desarticular, pelo menos momentaneamente, a candidatura do presidente Jair Bolsonaro à reeleição. A avaliação é do próprio comitê do presidente, que considera “um desastre” a prisão do ex-ministro. Aliás, usando a mesma estratégia de outros casos, o presidente ontem já descartou o seu velho amigo – houve um dia em que Bolsonaro jurou botar a “cara no fogo” em defesa de Milton Ribeiro – ao dizer depois da prisão que o ex-ministro “responde pelos atos dele”.

O problema agora, além da prisão do ex-ministro, um nome escolhido a dedo para compor o ministério – na verdade foi a quarta escolha de Bolsonaro –, são os desdobramentos políticos decorrentes dessa prisão. Além de uma abundância de provas, como áudios em que o ex-ministro dizia falar em nome do presidente da República para ajudar dois pastores e prefeitos alinhados a Bolsonaro, a prisão de Milton Ribeiro desmonta o diapasão do presidente de que não há corrupção no seu governo.

Ora, o ex-ministro é acusado de prevaricação, de corrupção passiva, de advocacia administrativa e de tráfico de influência, de forma que o discurso de que não há corrupção no governo cai por terra, mas não só por isso, porque, na verdade, há outros episódios que deixam mal o governo, como o caso do ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles – o que deixou a boiada passar –, para não falar em outros casos como, por exemplo, o do ministro do Supremo, Nunes Marques, que teve viagens à Europa pagas por um advogado que tem causas em tramitação no STF, ainda que se diga que se trata de um outro poder. De fato, mas quem indicou Nunes Marques para o Supremo foi o presidente Jair Bolsonaro.

Ainda ontem, na esteira do escândalo patrocinado pelo ex-ministro Milton Ribeiro, o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), anunciava que só falta uma assinatura para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Ministério da Educação – ou seja, mais problemas para o presidente Jair Bolsonaro na antevéspera de anunciar publicamente sua candidatura. Segundo Rodrigues, a última assinatura que ele recolheu foi a do senador Eduardo Braga, líder do MDB na casa. Pode até ser que Rodrigues consiga o número regimental para abrir a CPI – são necessárias 27 assinaturas –, a depender da posição do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, que provavelmente terá receio de abrir a Comissão Parlamentar de Inquérito em plena campanha eleitoral. Mas a prisão de Milton Ribeiro, com tudo o que ela representa, pode destampar a lata da fritura em que poderá penar o presidente da República.

O fato é que a prisão do ex-ministro desmonta dois pilares do governo Bolsonaro. Primeiro, que não há corrupção no seu governo. Segundo, a prisão do ex-ministro desfaz o discurso contra o ex-presidente Lula, que foi preso, condenado e preso por corrupção, embora todos os processos a que o petista respondia foram anulados, arquivados ou tiveram sentença de absolvição, ainda que os bolsonaristas continuem a tratá-lo como “o ex-presidiário”. Com a prisão de Milton Ribeiro, a narrativa fica comprometida. E não apenas Ribeiro foi preso, com ele está preso também o pastor Gilmar Santos, um dos cúmplices do ex-ministro na tramoia para destinar verbas a prefeitos que até hoje reclamam de terem dado dinheiro e não terem recebido as verbas prometidas em troca.

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