Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

A paz não veio, o mercado bateu recordes, Flávio foi a Washington e o Brasil ficou em casa

Publicado em 29/05/2026 às 18:28.Atualizado em 29/05/2026 às 18:30.

A semana começou com o petróleo Brent despencando 7% numa segunda-feira de feriado em Nova York. O mercado havia decidido, sozinho, que a guerra estava acabando. Ormuz seria reaberto, o urânio iraniano negociado, o petróleo barato. Tudo isso antes que qualquer acordo fosse assinado ou confirmado.

Na terça, ataques americanos no sul do Irã. Na quarta, mais ataques contra plataformas de mísseis perto de Bandar Abbas. Na quinta, novas explosões na mesma região. O Brent voltou para perto dos US$ 100, recuou com um rascunho de acordo vazado pela mídia iraniana, que Washington desmentiu em seguida. Trump disse que as negociações "prosseguem bem" num dia e que "não está satisfeito" no outro.

Cinco dias de manchetes contraditórias, drones abatidos, mísseis lançados e um cessar-fogo que parece existir só quando convém a quem está falando.

O mercado que opera em outra frequência

Wall Street ignorou tudo isso e bateu recordes. O S&P 500 e o Nasdaq fecharam em máximas históricas em pelo menos três dos cinco pregões. A Micron disparou quase 20% depois que um banco triplicou seu preço-alvo. A Dell explodiu mais de 39% no after hours com receita de servidores de IA crescendo 757% em um ano. O mercado de tecnologia opera como se a guerra fosse um ruído de fundo que atrapalha, mas não muda a tese.

O Ibovespa assistiu de fora. O câmbio chegou a tocar R$ 4,99 na segunda e ficou acima de R$ 5 o resto da semana. O real que subia junto com o petróleo, momentaneamente parou sua movimentação.

Flávio Bolsonaro foi a Washington

No meio da guerra e dos dados, Flávio Bolsonaro passou a semana nos Estados Unidos, conseguiu a foto no Salão Oval, reuniu-se com Vance e Rubio, e pediu pessoalmente que Trump classificasse PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Dias depois, o anúncio veio. Vigência a partir de 5 de junho.

O Planalto foi pego de surpresa. A armadilha é conhecida, qualquer reação de Lula vira munição eleitoral. Celso Amorim reclamou da interferência. Flávio agradeceu publicamente. O timing, às vésperas de nova rodada de pesquisas, não foi coincidência. Pelo momento não houve reação em nosso mercado, mas os investidores estão em alerta.

Os números do Brasil

No Brasil, depois de uma semana em que quase tudo conspirava para manter os juros altos, o Caged de abril apareceu com 85,9 mil vagas contra uma mediana de 211 mil. A menor criação de empregos para o mês em quase uma década. Um dado não faz tendência. Mas foi o primeiro sinal concreto de que a Selic pode estar chegando onde precisa chegar.

O BC não comemorou. A curva de juros chegou a cair, mas fechou em alta. A semana entregou o primeiro raio de luz no desaquecimento e, fiel ao seu estilo, o mercado preferiu não acreditar antes de confirmar. O PIB do primeiro trimestre chegou para fechar o argumento, 1,1% de crescimento na margem, puxado pelo agro, investimentos e consumo das famílias. A economia ainda está mais forte do que o BC gostaria. 

A semana foi assim, muita coisa aconteceu e quase nada foi resolvido. O mundo correu para antecipar a paz. O Brasil ficou de fora do rali. E os que esperaram para confirmar, não fizeram um mau negócio.

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