Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Junho chega com a fatura da paz prematura

Publicado em 01/06/2026 às 09:01.Atualizado em 01/06/2026 às 09:04.

Os investidores foram dormir no fim de semana convictos de uma expectativa. E então o Hezbollah voltou a atacar, Israel cruzou o rio Litani, navios apagaram as luzes para atravessar Ormuz e Donald Trump foi para a Truth Social anunciar que o acordo ainda não está fechado.

O problema não é a guerra em si. O problema é o preço que o mercado cobrou pela paz antes de ela acontecer. A queda do petróleo foi tratada como um evento de crédito, como se a normalização de Ormuz fosse questão de semanas e o prêmio de risco já pudesse ser devolvido ao bolso. O recado que chega desta segunda-feira é que o desconto foi prematuro. Brent já saltava para US$ 93 na abertura asiática, de US$ 91 no fechamento de sexta. Pequeno movimento, grande sinal.

Ormuz e sua realidade
A matemática de Ormuz é simples e brutal. Cerca de 20% do petróleo mundial passa por ali. Com navios trafegando no escuro, sistemas de identificação desligados e o Parlamento iraniano aprovando um projeto para formalizar o controle permanente do estreito, falar em normalização parece mais desejo do que análise. Washington proibiu acordos mediados pelo governo de Teerã e ampliou sanções, enquanto a Guarda Revolucionária reafirma controle total. A guerra de narrativa sobre Ormuz está longe de terminar.

O Clima com os EUA Já Piorou
Com feriado de Corpus Christi na quinta-feira, a semana já nasce curta. E começa ainda mais pesada. Empresários brasileiros aguardam para hoje um possível anúncio de novas tarifas americanas sobre produtos brasileiros, resultado de uma investigação formal do governo Trump contra o Brasil. A acusação é de práticas comerciais desleais, e o escopo é amplo, os Estados Unidos questionam desde o uso do Pix como sistema de pagamento nacional até políticas de etanol, proteção de propriedade intelectual e desmatamento ilegal. Na prática, Washington está dizendo que o Brasil joga com regras que prejudicam empresas americanas, e pode cobrar essa conta com tarifas elevadas sobre exportações brasileiras. Uma fonte do próprio governo brasileiro resumiu o clima ao Estadão ao chamar o resultado potencial de "uma bomba do ponto de vista comercial."

O real segura bem por enquanto. Com a Selic ainda elevada, o Brasil oferece retorno atrativo para investidores estrangeiros e o dólar acumula queda de 11% no ano frente ao real. Mas a relação com Washington nunca esteve tão próxima de uma virada feia. No plano doméstico, o governo anunciou novo bloqueio de R$ 23,7 bilhões no orçamento de 2026. O motivo é o crescimento acelerado dos gastos obrigatórios, especialmente a Previdência Social, que deve consumir R$ 1,1 trilhão neste ano. Para ter uma ideia da proporção, o BPC, benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, vai custar quase o dobro de tudo que o governo federal planeja investir no país inteiro.

A Âncora que vem dos EUA
A semana fecha com o payroll americano de maio, o relatório de empregos dos Estados Unidos que o mercado usa como termômetro para entender se o Fed vai ou não reduzir os juros por lá. A lógica é direta, economia americana forte significa que o banco central americano não tem pressa para cortar juros. Juros altos nos EUA por mais tempo atraem capital para lá, pressionam moedas emergentes e encarecem o
crédito global. 

No Brasil, o PIB do primeiro trimestre veio acima do esperado, o que cria um problema parecido para o Banco Central brasileiro. Com a economia aquecida e a inflação ainda no radar, a Selic também não cai fácil. O mercado entrou junho com um portfólio de otimismo comprado barato em maio. A semana começa com a fatura chegando, veremos como o mercado reagirá.

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