Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Nem um payroll fraco salvou o real da política brasileira

Publicado em 03/07/2026 às 19:10.

A semana prometia payroll e entregou exatamente isso, só que embrulhado numa ironia que resume bem o humor do mercado em 2026. O relatório de emprego saiu fraco, revisões para baixo incluídas, e por um instante pareceu que o Fed finalmente ganharia uma desculpa para relaxar. Durou pouco. 

O emprego americano perdeu o gás e ninguém comemorou direito

Cinquenta e sete mil vagas em junho, quase metade do esperado, com abril e maio revisados para pior. A média móvel de três meses despencou para 111 mil, e a composição do dado só reforçou a fragilidade, já que a maior parte da criação veio de saúde e assistência social, setores que não respondem ao ciclo econômico.

Ainda assim, a taxa de desemprego caiu para 4,2%, os salários seguraram o ritmo, e o mercado não teve coragem de apostar em corte de juros. Apenas reduziu a probabilidade de nova alta. Um alívio de copo meio cheio, que Wall Street tratou com a discrição de quem não quer se comprometer antes da hora.

O petróleo não assusta mais

Depois de meses sendo o vilão da vez, o barril passou a semana devolvendo prêmio de risco. Irã e Estados Unidos seguem trocando sinais contraditórios sobre Ormuz e sobre uma eventual rodada em Doha, mas o mercado parou de precificar catástrofe.

Fluxo normalizado, Opep+ prometendo mais oferta, e o resultado é um Brent que fecha a semana rondando os 71 dólares, como se a guerra tivesse virado ruído de fundo. O governo brasileiro aproveitou a folga para começar a desmontar os subsídios aos combustíveis, prova de que política pública também sabe aproveitar a janela de oportunidade.

Brasília decidiu que ainda não é hora de facilitar a vida do investidor

Enquanto o exterior amenizava, o Brasil optou por complicar. A pesquisa Atlas colocou Lula na frente num eventual segundo turno, as sanções dos Estados Unidos contra brasileiros ligados ao PCC ampliaram a aversão a risco e o tarifaço passou oficialmente a fazer parte da disputa eleitoral, com direito a carta de Flávio Bolsonaro ao escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, e resposta ácida do presidente nas redes.

O resultado foi uma curva de juros que ignorou o payroll fraco dos Estados Unidos e preferiu se preocupar com o próprio quintal, encerrando a semana em alta consistente, segurando o dólar também em patamares elevados.

O dólar aprendeu a não comemorar cedo demais

Chegou a cair para perto de R$5,15 na euforia pós payroll, mas devolveu tudo e fechou em R$5,2083. O enredo já é conhecido, prêmio político sobe, atratividade de moeda de país produtor de petróleo cai junto com o barril, e o carry trade que deveria sustentar o real acaba disputando espaço com a ansiedade eleitoral. 

Junho fechou como o segundo mês seguido de fuga estrangeira da bolsa, e o fluxo agora migra para Ásia, onde a história de inteligência artificial parece mais fácil de vender do que a de reforma fiscal.

Fica o aviso

Daqui em diante, o investidor pode continuar acompanhando cada dado do Fed. Mas, pelos próximos meses, a direção dos ativos brasileiros será definida muito mais pelo noticiário político de Brasília do que pelas planilhas de Washington.

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