A semana que começa com a política tarifária americana e a Selic brigando pela atenção do investidor ao mesmo tempo. Ninguém sai vencedor sozinho. E é bom prestar atenção porque cada uma dessas duas pontas pode puxar a bolsa para um lado diferente antes de sexta.
O Petróleo Esta Controlado
A Opep+ confirmou neste domingo o quarto aumento seguido de produção, 188 mil barris a mais por dia a partir de agosto, exatamente o volume que o mercado já vinha precificando desde a semana passada. O grupo reafirmou que pode acelerar, pausar ou até reverter o plano dependendo de como oferta e demanda se comportarem, e prometeu reuniões mensais para reavaliar tudo. Na prática isso significa liberdade total para fazer o que for conveniente e chamar de estratégia depois. Com o Estreito de Ormuz de volta à normalidade e o comércio entre Irã e Catar retomado, o Brent abriu em queda de 0,58%, a 71,70 dólares, e o WTI caiu 0,51%, a 68,34 dólares. O Citi já projeta o barril na faixa dos 60 dólares até dezembro, e se essa conta fechar o Banco Central brasileiro ganha um argumento e tanto para justificar corte de juros em agosto sem parecer que está cedendo à pressão política.
As Tarifas Começam a Ser Discutidas
Hoje começa a audiência do USTR, o escritório do governo americano que comanda a política de comércio exterior dos Estados Unidos. O órgão investiga as práticas comerciais brasileiras e a sessão de hoje é a primeira etapa formal da tarifa de 25% que Trump quer aplicar ao País. A indústria nacional vai repetir o argumento técnico de que a tarifa fura o próprio pé americano, já que parte relevante do que o Brasil exporta é insumo usado pela indústria dos Estados Unidos. O governo brasileiro decidiu tratar o Pix como questão de soberania e vai defendê-lo com a mesma intensidade que defenderia uma commodity estratégica. Curioso mesmo é ver Flávio Bolsonaro do outro lado do Atlântico pedindo a suspensão da tarifa, com o argumento de que ela
fortalece Lula.
O Que Observar Até Sexta
A agenda brasileira testa se a narrativa de desaceleração econômica se sustenta. Amanhã sai o IGP-DI de junho, com queda esperada de 0,60% depois da alta de 0,87% em maio. Quarta-feira vem o varejo de maio, que deve confirmar o mesmo enfraquecimento já visto na produção industrial. Sexta-feira fecha o ciclo com o IPCA de junho, o dado que mais importa para o Copom de agosto. Ainda hoje o Boletim Focus mostra se as expectativas de inflação pararam de subir. Lá fora, o Fomc divulga ata quarta-feira, a primeira sob Kevin Warsh, que já avisou que não vai dar pista
nenhuma sobre os próximos passos, e o BCE (Banco Central Europeu) solta a sua na quinta. China divulga CPI e PPI na noite de quarta, e Galípolo (Presidente do Banco
Central Brasileiro) se reúne hoje em São Paulo com representantes do FMI para tratar de assuntos institucionais, o tipo de conversa que raramente vaza mas sempre importa.
A Selic Apostando na Fraqueza
Depois da produção industrial cair 0,2% quando o mercado esperava alta, o preço de mercado já embute 72% de chance de corte da Selic em agosto contra 28% de pausa. O Santander elevou a projeção de juros para o fim do ano citando risco de El Niño, o BofA prefere manter a conta em 14,25% alegando inflação ainda desancorada, e a curva futura caiu na sexta mesmo assim, animada pela combinação de indústria fraca e dólar abaixo de 5,20 reais. O Tesouro prometeu leilões de recompra para segurar aliquidez, promessa que o mercado recebeu com o entusiasmo reservado a
compromisso de político perto de eleição. Duas frentes, um único enredo. O investidor que passar a semana olhando só para o IPCA pode perder metade da narrativa.