Rafa AnthonyTrader de dólar há 10 anos, professor e especialista em Market Profile, uma poderosa ferramenta de análise do mercado

Warsh sinaliza alta de juros nos EUA, e mercado recalibra apostas para setembro

Publicado em 29/08/2026 às 06:00.

O mercado passou a semana lateralizado esperando os desdobramentos de hoje. Kevin Warsh, presidente do Fed, passou meses evitando dar pistas sobre os próximos passos dos juros, e essa fase terminou hoje em Jackson Hole. No discurso mais aguardado do mês, sinalizou que uma alta está sobre a mesa se a inflação não ceder e defendeu um Fed mais discreto daqui para frente, com menos comunicação e menos ruído entre reuniões. 

Traduzindo, o homem que prometeu não dar guidance decidiu que a melhor forma de fazer isso é confirmar o viés hawkish, favorável a juros mais altos, e só depois pedir silêncio. Irônico, já que ele mesmo quebrou o silêncio para dizer isso, e o desconforto no mercado não demorou a aparecer.

Ormuz segue sem solução

O timing não podia ser pior. Bastou o Irã e os Estados Unidos travarem de novo as negociações sobre Ormuz, o estreito por onde passa boa parte do petróleo do mundo, para o barril voltar a subir. Trump perdeu o interesse no memorando por achar que estava sendo bonzinho demais com Teerã, enquanto a Rússia prepara nova escalada contra a Ucrânia. 

Para um Fed que já vinha de um PCE, indicador que mede os gastos do consumidor americano, mais quente que o esperado, petróleo em alta é o ingrediente perfeito para transformar preocupação em justificativa.

A Nvidia vive em uma realidade paralela

Enquanto o mundo segue indeciso, Wall Street só quer saber de uma coisa, quantas GPUs, os chips que processam inteligência artificial, a Amazon vai comprar da Nvidia. A maior fabricante do setor disparou quase 9% ao projetar crescimento de 70% na receita do próximo ano fiscal, número que fez as expectativas do mercado parecerem modéstia excessiva. 

O Nasdaq subiu junto, e até a Totvs, aqui do lado de cá, entrou na festa. Existe uma economia real, com juros, petróleo e guerra, e existe a economia da Nvidia, que roda num universo paralelo onde nada disso interfere na demanda por chips.

O Brasil se prepara para mais cortes da Selic

Essa semana entregou um verdadeiro contraste. O IPCA-15, prévia da inflação brasileira, veio negativo, a Pnad trouxe o menor desemprego da série histórica, e o mercado já dá como certo o corte da Selic no Copom de 15 e 16 de setembro.

A divergência entre Brasil e Estados Unidos cria um cenário complexo para o câmbio, porque os Estados Unidos, com taxas de juros elevadas, continuam extremamente atrativos para o capital internacional. Por ora, o dólar reage pouco, o Ibovespa emenda pregões seguidos de alta e o estrangeiro volta a comprar, ainda que em doses homeopáticas depois de uma sangria de vinte bilhões de reais no mês.

Se esse cenário continuar se firmando, o fluxo estrangeiro na bolsa tem tudo para ganhar tração. Mas faltam dezenove dias até as reuniões decisivas dos bancos centrais, e é só aí que essa história começa a ganhar força. Na semana que vem sai o Payroll, principal indicador econômico dos Estados Unidos, que vai ajudar, ou não, a consolidar essas expectativas.

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