Bares, restaurantes e a burocracia que nunca dorme

Publicado em 29/08/2025 às 06:00.

Rubens de Avelar Freitas*


O abrir das portas de um bar ou restaurante revelam muito mais que apenas comida e bebida. Os estabelecimentos oferecem um espaço de convivência, cultura e experiência multissensorial. Mas junto com o sonho de empreender, vem também um dos maiores desafios enfrentados por empresários e trabalhadores brasileiros: as legislações municipais. Regras que variam de cidade para cidade e impactam diretamente a rotina, nos custos e até na sobrevivência dos estabelecimentos.

Entre os pontos mais sensíveis está o horário de funcionamento. Para algumas autoridades públicas, limitar o tempo de atividade é uma forma de garantir ordem urbana e reduzir problemas como poluição sonora ou segurança pública. Entretanto, para quem está do outro lado do balcão, cada hora a menos de funcionamento pode significar perda de faturamento, redução de funcionários e até mesmo a inviabilização do negócio. Em cidades turísticas o lazer noturno é um atrativo e restrições excessivas acabam afetando também a economia local.

Outro tema delicado é a música ao vivo. Muitos bares utilizam apresentações de artistas para atrair clientes, valorizar a cultura e gerar renda para músicos locais. No entanto, as regras sobre volume, horários ou a proibição completa em algumas regiões tornam essa prática muito delicada. A inexistência completa ou parcial de diálogos entre o poder público, moradores e proprietários de estabelecimentos, geram conflitos que poderiam ser amenizados com soluções equilibradas, como por exemplo, o incentivo a medidas de isolamento acústico ou a criação de zonas específicas para atividades noturnas.

As cobranças municipais também compõem um cenário de peso. Alvarás, licenças, autorizações para mesas em calçadas dentre tantas outras cobranças, embora justificadas pela necessidade de organização urbana, muitas vezes são aplicadas de forma desproporcional, especialmente para pequenos negócios. O resultado é um efeito de exclusão: empreendimentos menores, sem a mesma estrutura financeira de grandes redes, acabam sufocados pela burocracia e pelos custos extras.

Vale ressaltar que os bares e os restaurantes não podem ser vistos apenas como empresas. Eles são espaços que movimentam a economia local, gerando empregos diretos e indiretos e, acima de tudo, ajudando a construir a identidade cultural e social de uma cidade. A gastronomia e a hospitalidade são parte da memória afetiva dos moradores e da experiência dos visitantes. Quando não há diálogo na aplicação da legislação, a oportunidade de fortalecer esse patrimônio é perdida.

O grande desafio está justamente em encontrar um equilíbrio. A regulamentação é necessária, mas ouvir todos os lados é fundamental. Algumas experiências bem sucedidas em determinadas cidades mostram que a criação de conselhos consultivos que reúnem representantes do setor de bares e restaurantes, moradores e autoridades locais, traz resultados mais justos e duradouros. Isso porque o objetivo não é punir quem gera emprego e entretenimento, e sim criar condições para que negócios prosperem de forma sustentável e em harmonia com a comunidade.

No final as regras municipais deveriam ser vistas não como um obstáculo, mas como uma oportunidade de melhoraria da vida em sociedade. Para isso é preciso que os órgãos regulamentadores vejam os bares e restaurantes não apenas como estabelecimentos comerciais, mas como parte essencial da vida urbana cotidiana. E que os proprietários por sua vez, se comprometam com responsabilidade social e respeito ao entorno em que estão inseridos. Só assim será possível transformar leis em pontes, e não em barreiras.

*Gastrólogo e professor especialista em gastronomia e estudos da culinária

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