Mixologia afetiva: drinks que contam histórias

Publicado em 16/01/2026 às 06:00.

Rubens de Avelar Freitas*


Em muitos bares brasileiros, o copo deixou de ser apenas recipiente: virou porta-retratos, diário e lembrança. A mixologia afetiva, tendência que cresce silenciosamente nas cartas de drinks, aposta nas memórias como ingrediente principal. Cada bebida nasce de uma história — uma pessoa, uma cidade, uma música — e o cliente, ao provar, participa desse enredo.

Há bares que criam coquetéis inspirados em viagens. Um bartender lembra do cheiro de maresia de uma tarde em Ilhéus e recria essa sensação com cachaça envelhecida, toque de cacau e um spray de água de coco queimado.

Outro transforma a lembrança da avó preparando bolo de fubá em um drink cremoso, com notas de milho tostado e limão-cravo. O gesto é simples, mas carrega algo raro: a intenção de transformar o sabor em afeto.

Também se multiplicam cartas dedicadas a homenagens. Tem drink batizado com nome de mãe, de amigo que partiu, de amor antigo ou de ídolo musical. Em alguns balcões, o bartender pergunta ao cliente qual memória ele gostaria de reviver naquela noite. Às vezes é um verão inesquecível; às vezes, um lugar onde nunca voltou. A bebida nasce ali, quase como um retrato líquido.

Essa aproximação entre emoção e coquetelaria não vem por acaso. Em um mundo acelerado, cheio de telas e distrações, há uma busca crescente por experiências que façam sentido. E poucas coisas despertam lembranças tão rápido quanto um aroma ou um sabor.

Quando um drink provoca esse retorno afetivo, ele deixa de ser apenas consumo — torna-se encontro. Na prática, a mixologia afetiva ajuda a mudar a relação entre bar e público. O cliente deixa de ser apenas consumidor e passa a coautor.

Bartenders, por sua vez, assumem um papel quase de narradores, traduzindo histórias em ingredientes, texturas e temperaturas. É uma troca que valoriza tanto a criatividade quanto a sensibilidade. No fim, essa tendência prova algo essencial: bebidas não precisam apenas impressionar; podem também acolher.

Um coquetel que desperta nostalgia, que nos devolve a uma rua antiga, a uma música que marcou época, ou a um abraço que ficou na memória, tem o poder de transformar a noite em algo maior. E, quando o gole carrega lembranças, o brinde ganha outro significado.

*Gastrólogo e professor especialista em gastronomia e estudos da culinária

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