Guilherme da CunhaAdvogado pós-graduado em Direito Tributário e deputado estadual, coordenador da Frente Parlamentar pela Desburocratização

Censura, ineficiência e cortina de fumaça

Publicado em 21/03/2022 às 06:00.

No dia 15/03/2022, o Ministério da Justiça publicou o despacho nº 625 determinando que Netflix, Globo, YouTube, Apple e Amazon retirassem de seus catálogos o filme "Como se tornar o pior aluno da escola", dirigido por Fabrício Bittar e estrelado pelos humoristas Danilo Gentili e Fábio Porchat.

No filme, o vilão é um falso moralista pedófilo. Vilões, é bom destacar, ilustram o mal nas peças de ficção e são exemplos do que NÃO se deve fazer.

O filme, em 2017, havia sido analisado pelo mesmo Ministério da Justiça e recebido a classificação indicativa de que seria apropriado para a audiência de qualquer pessoa com 14 anos ou mais. O que mudou nos cinco anos entre a primeira e a segunda análise

Primeiro, mudou o governo. Em 2017 o presidente era Michel Temer. Desde 2019, é Jair Bolsonaro. Se a revisão do posicionamento é fruto da mudança de governo, esse é um governo terrivelmente ineficiente, posto que já se passaram três anos para um ato relativamente simples e que não demanda grandes recursos nem apoio no Congresso.

Mudou, também, o posicionamento de políticos bolsonaristas sobre o filme. Em 2017, o deputado Pastor Marco Feliciano fez postagem no Twitter elogiando o filme dizendo que há tempos não ria tanto. O deputado André Fernandes também foi ao Twitter agradecer a Danilo Gentili pelas risadas. Passados cinco anos, ambos estiveram na linha de frente dos ataques a Gentili, da rotulagem da obra como apologia à pedofilia e dos pedidos de proibição de sua exibição.

Mudou, principalmente, o cenário político. Inflação galopante e a decisão da Petrobrás de elevar os preços dos combustíveis fizeram a gasolina passar de R$10 em algumas regiões e ameaças de paralisação de caminhoneiros e até mesmo de motoristas de aplicativo entraram na pauta dos noticiários e das redes sociais, com severas críticas ao governo.

Foi nesse novo cenário político que um filme de cinco anos atrás, analisado à época como apropriado para qualquer pessoa com mais de 14 anos e elogiado por conservadores notórios, foi desenterrado e jogado com estardalhaço sob os holofotes, passando a dominar as redes sociais com rótulos que mexem com o emocional dos brasileiros. Tudo indica que foi cortina de fumaça, tentativa de desviar a atenção do público de um debate no qual o governo ia mal. Manipulação da população, em essência.

Cortina de fumaça ou não, foi censura. A velha e odiosa prática adorada e adotada por autoritários e falsos moralistas (como é o vilão do filme, aliás). Pensando bem, nada mais adequado para nosso atual governo federal, que coloca Ciro Nogueira, réu por formação de organização criminosa e desvio de dinheiro, para cuidar do Orçamento e cujo clã que o comanda vive às voltas com acusações de rachadinha em meio a discursos contra a corrupção.

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