Guilherme da CunhaAdvogado pós-graduado em Direito Tributário e deputado estadual, coordenador da Frente Parlamentar pela Desburocratização

Somos todos Rafão

Publicado em 02/05/2022 às 06:00.

Não é fácil ir contra o sistema. E, especialmente na Assembleia, não é fácil ir contra a tradição de aprovar tudo simplesmente porque o colega pediu, sem discutir se a proposta é ruim ou nociva para o povo. Quem faz isso, e eu faço, pode acabar rotulado como aquele que expõe o colega, que atrapalha os trabalhos. Parecem não compreender que isso é defesa do povo, das ideias que foi eleito para representar, e que o que é rotulado como atrapalhar os trabalhos é a mera execução do próprio trabalho. Afinal, parlamento é local de debate, não de bater carimbos.

A reação do sistema à tradição de camaradagem é o isolamento, às vezes a perseguição. Já estou acostumado e considero isso o preço de tentar mudar as coisas, que é a razão pela qual entrei para a política. Já estou acostumado a ver minhas proposições rejeitadas sem debate ou explicação. Já estou acostumado até a responder processos de quebra de decoro literalmente por defender minhas ideias.

Semana passada a reação do sistema subiu um degrau e atingiu níveis de covardia que jamais imaginei ver. Talvez cansados de mover ações contra mim, que nunca cederei a nenhuma intimidação, resolveram virar seus canhões para um membro da minha equipe.

Na reunião da Comissão de Finanças e Orçamento iniciei discussão contra autorização de doação de patrimônio público para entidades privadas sem licitação, que estava sendo “enfiada” em projeto que tratava de um assunto totalmente diferente e que por causa da manobra poderia virar lei sem nenhum debate. Sei que expor isso incomoda, e é o tipo de coisa que podem preferir aprovar discretamente. Sei, também, que a lei não permite ser assim. Pedi ao meu assessor, Rafaello, um cara cheio de tatuagens com momentos marcantes da família dele, com o maior coração do mundo e que para os íntimos é o Rafão, para filmar a discussão. A lei permite isso, seja a assessor ou a qualquer cidadão.

A regra da ALMG proíbe filmagens nos espaços de acesso restrito aos deputados no plenário. Estávamos no auditório, no andar de cima, e ele estava no espaço da plateia. Apesar disso, o dep. Sargento Rodrigues (PL), que já moveu processo contra mim, interpelou meu assessor para que parasse de fazer seu trabalho e o presidente da comissão, dep. Hely Tarquinio (PV) colocou em votação e aprovou requerimento para que fosse aberta investigação contra ele.

Rafão não era o alvo. O problema ali era o debate, não um assessor que eles não conhecem (e nem se importaram em virar os canhões para ele). Rafão é só o elo mais fraco nas estruturas de poder da ALMG, da mesma forma que sou o mais fraco nas estruturas de coleguismo entre deputados. O povo é o mais fraco nas relações pouco transparentes entre a lei e os grupos de interesse organizados. Rafão não é só ele nem está sozinho nessa vulnerabilidade. Na mira do sistema, somos todos Rafão.

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2022Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por