Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

Há 200 anos

Publicado em 19/10/2021 às 20:32.Atualizado em 05/12/2021 às 06:05.

Em belo artigo recentemente publicado, Danilo Gomes recorda os últimos dias de Napoleão Bonaparte na ilha de Santa Helena, para onde fora em exílio a passar os últimos dias naquele “deserto de amargura e tédio”, como descreveu André Maurois. Os fracassados em seus projetos não têm escolha, pois o ex-imperador preferiria ter morrido em Moscou, Danilo Gomes, de nossa Academia Mineira de Letras, observa que foram cinco anos e meio de sofrimento e meditação. “As gerações futuras também meditariam sobre Santa Helena, sobre o poder e queda, o fastígio e a derrota, a ambição e o abandono”.

O ato final se deu há duzentos anos, em 5 de maio de 1821. O médico, com apenas 33 anos, corso  como o falecido e a quem Napoleão detestava, “gentilmente fechou os olhos do famoso morto e parou o relógio. Eram 17h49, e o sol melancolicamente descaía sobre a desolada ilha atlântica. Chovia naquele dia, e à tarde a chuva se transformou num medonho temporal”.

O Dr. Antommarchi, especialista em autópsias, lhe encontrou no estômago vestígios de uma úlcera cancerosa bem extensa, nunca combatida. A hipótese de envenenamento com arsênico, a mando dos Bourbons, persiste há mais de duzentos anos. Os pesquisadores e ficcionistas se servem do tema para escritos.

Depois dos dias gloriosos, de suas eloquentes falas à tropa, de suas tentativas de dominar a Europa, o mais célebre guerreiro da época, estava esquecido numa longínqua terra cercada de água por todos os lados. Diante e depois da derrota e do abandono por quantos deveriam ainda preservar-lhe o restante de grandeza e  nome, Napoleão não podia mais expressar sua vergonha e dor. Os mortos não falam.

No fracasso, a maior virtude reside na humildade, mas o ambiente não era propício a manifestações do gênero. Não se viam sequer lágrimas, enquanto o navio Heron era despachado à Inglaterra levando a notícia do passamento do pequeno herói, em dimensões físicas.

O excelente articulista Danilo Gomes conclui: “Napoleão Bonaparte foi enterrado no dia 8, em cova simples, com uma grande pedra por cima, sob o olhar inamistoso do governador militar Hudson Lowe. Houve uma singela cerimônia religiosa. Lowe perguntou ao general Bertrand se desejava dizer algumas palavras, mas ele estava muito consternado e declinou do honroso convite. Ocorreu uma modesta cerimônia militar por parte dos soldados ingleses, com bandas tocando músicas fúnebres e com disparo de três salvas de mosquetaria”. 

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