Manoel HyginoO autor é membro da Academia Mineira de Letras e escreve para o Hoje em Dia

Um livro raro

Publicado em 20/05/2026 às 06:00.

O nome é “Pequenos Fantasmas”, a edição da Seja Breve Edições, de Higienópolis, São Paulo, neste 2026. O autor – Humberto Werneck – nasceu em Belo Horizonte em 1945 e vive na “capital bandeirante” desde 1970. Começou na Imprensa a convite de Murilo Rubião, criador e editor do Suplemento Literário do Minas Gerais, que marcou época dentro e fora da terra montanhesa.

Werneck descende de Hugo Werneck, que se instalou na capital mineira no princípio do século XX, consagrando-se na Medicina, mas participando de tudo que houvesse interesse para a metrópole. Falo de Hugo Werneck, que tem praça com seu nome, dentre outras honrarias. O neto, Humberto, publicou livros de crônicas, um relato da vida de Jayme Ovalle, e ora trabalha numa biografia de Carlos Drumond de Andrade.

O recém-lançado volume de contos é, antes de tudo (e já vou dizer) algo primoroso que começa com “Menino no quintal”, tudo muito simples e trivial, com a criança ficando “horas e horas” longe de tudo. “O quintal o que era? Chão e lugar. Um lugar como se fosse a sala de visitas, a copa, só que tinha plantas e coisas e pedaços de coisas. Último reduto, esconderijo, liberdade total não fosse, para a mãe, o perigo de sujar a roupa. Podia até conversar sozinho, ou com os bichos, ninguém ia dizer esse menino parece doido”.

Em seguida, “O vagalume”: “Os bichos moravam perto da noite, na beira do rio. Pelas seis horas brotavam da neblina e picotavam a sombra num voo luminoso”. Em seguida, “Oito anos” e depois “Acontecimento de família”, algo tenebroso, pois tocava fundo em todos do clã: “Quando a mulher, a voz difícil, cabeça derreada, contou enfim que a menina, a única, já não era moça, e contou isso devagar, a coisa lhe custando a sair, o homem pensou primeiro foi na morte. Imaginou engasgado que ia morrendo, que ia aos poucos morrendo, mãos, pernas, o resto. A velha, sabedora bem antes do ocorrido, carregou com a filha para a casa de uns parentes. Passado o momento do baque, o homem sentiu precisão de quebrar tudo, e desse rompante não ficou coisa inteira na casa”.

Mas os contos continuam. Chega-se à narrativa de “Do terceiro andar”: “O bedel Boaventura Mendes é aquele homem que, na amurada no terceiro andar, ajeitou os óculos e se debruçou para assistir à aula de ginástica. 

O volume e seus contos já têm lugar próprio em minha biblioteca. As narrativas conquistam. Quem tiver dúvida, ainda ficará surpreso com o último – o único que não é exatamente da primeira coletânea – a da mocidade. 

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