René Dentz*
Vivemos em uma época paradoxal. Nunca se falou tanto em saúde mental, autocuidado, espiritualidade, terapia, inteligência emocional, mindfulness, alimentação saudável, performance física, respiração consciente, equilíbrio interior e bem-estar. Nunca tivemos tantas ferramentas para cuidar de nós mesmos. E, no entanto, talvez estejamos nos tornando cada vez menos capazes de olhar verdadeiramente para o outro.
Há algo de profundamente inquietante nisso. A cultura contemporânea transformou quase tudo em uma extensão do próprio eu. O esporte, que poderia ser experiência comunitária, converte-se frequentemente em obsessão estética e desempenho narcísico. A alimentação deixa de ser encontro e convivialidade para tornar-se cálculo ansioso. A meditação, que em muitas tradições espirituais carregava uma abertura ética ao mundo, muitas vezes é reduzida a uma técnica de produtividade emocional. Até mesmo a espiritualidade passa a funcionar como gestão privada da ansiedade.
O sujeito contemporâneo tornou-se administrador permanente de si mesmo. Byung-Chul Han já havia percebido isso ao afirmar que o indivíduo neoliberal não é mais explorado por um outro externo, mas por si mesmo. Ele é simultaneamente patrão e escravo. Cobra-se, vigia-se, monitora-se. O relógio inteligente mede seus passos, o aplicativo controla seu sono, a dieta organiza seus impulsos, a terapia frequentemente busca otimizar sua eficiência. Tudo gira em torno do eu: meu corpo, minha saúde, minha mente, meu desempenho, minha paz.
Mas existe um preço silencioso nisso. Quando toda a energia psíquica é absorvida pela administração de si, sobra pouco espaço para a alteridade. O outro torna-se inconveniente. O sofrimento alheio começa a cansar. A diferença irrita. A lentidão do próximo incomoda. A fragilidade humana passa a ser percebida quase como ameaça à própria estabilidade emocional.
Talvez porque a empatia exija precisamente aquilo que estamos perdendo: descentralização do eu. A verdadeira experiência ética não nasce do excesso de introspecção, mas da abertura. Emmanuel Lévinas insistia que o rosto do outro rompe nossa autossuficiência. O outro nos desinstala. Ele interrompe nosso narcisismo. Contudo, a cultura contemporânea tenta constantemente neutralizar essa ruptura. Queremos relações sem conflito, espiritualidade sem transcendência, comunidade sem desconforto, amor sem risco.
Até mesmo certas apropriações ocidentais de tradições orientais acabam sendo capturadas por essa lógica. Slavoj Žižek criticou precisamente esse fenômeno ao observar como determinadas formas de “budismo ocidental” podem funcionar perfeitamente dentro do capitalismo tardio: o sujeito medita para continuar suportando o sistema, respira fundo para voltar mais produtivo ao trabalho, busca serenidade não para transformar o mundo, mas para adaptar-se melhor a ele. O sofrimento estrutural desaparece; resta apenas a administração privada das emoções.
Não se trata de rejeitar a meditação, a terapia ou o cuidado consigo. Eles podem ser profundamente importantes. O problema começa quando o cuidado deixa de ser caminho de abertura e torna-se clausura narcísica. A obsessão contemporânea consigo mesmo frequentemente mascara um medo profundo: o medo da vulnerabilidade, do encontro, da dependência, do sofrimento compartilhado. O outro real sempre ameaça nossas ilusões de controle. Ele exige tempo. Escuta. Paciência. Renúncia ao protagonismo absoluto.
E talvez seja exatamente isso que esteja desaparecendo. Há pessoas extremamente “evoluídas” emocionalmente que já não conseguem ouvir ninguém. Pessoas que dominam o vocabulário terapêutico, espiritual e motivacional, mas perderam a capacidade elementar de compaixão concreta. Sabem falar sobre trauma, energia, autocuidado e consciência, mas não conseguem sustentar relações humanas minimamente profundas.
Talvez precisemos recuperar algo simples e radical: sair de nós mesmos. Menos obsessão consigo. Menos monitoramento permanente da própria vida. Menos culto à própria estabilidade emocional. E mais presença. Mais escuta. Mais capacidade de suportar o diferente. Mais coragem para amar sem transformar tudo em gestão narcísica do eu. Porque uma sociedade pode possuir todas as técnicas de autocuidado do mundo e, ainda assim, adoecer profundamente naquilo que mais importa: sua capacidade de reconhecer a humanidade do outro.
* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.