Classificação da miopia como doença e riscos de cegueira

Publicado em 04/07/2026 às 06:00.

Paula Guimarães*

A miopia é o erro de refração mais comum no mundo, acometendo bilhões de pessoas, cujas consequências a longo prazo não devem ser menosprezadas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o número de míopes pode chegar a 50% da população global, até 2050, impulsionado por fatores ambientais, incluindo o uso excessivo de telas em idade precoce. O impacto na saúde pública é tão significativo que um consenso, liderado pela Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina (Nasem) dos Estados Unidos, recomendou a classificação da miopia como uma doença estrutural e não apenas um vício de refração, devido ao risco de comprometimento permanente da retina, a camada de tecido nervoso no fundo do olho.

A mudança está ligada diretamente às alterações anatômicas, provocadas pelo aumento do grau. O globo ocular míope tende a crescer além do normal, em seu eixo anteroposterior, alongando e afinando as camadas internas do olho, como a retina e a coroide. O estiramento estrutural eleva, consideravelmente, o risco de desenvolvimento de patologias graves, como a catarata precoce, o glaucoma e, especialmente, o descolamento de retina e a maculopatia miópica.

O descolamento de retina é considerado uma das principais urgências cirúrgicas oftalmológicas. Quando a retina neurossensorial se separa do epitélio pigmentado, perde o suprimento vascular e de nutrientes. A ausência de uma intervenção médica rápida provoca a morte dos fotorreceptores e danos irreparáveis, pois o tecido retiniano possui capacidade de regeneração funcional nula. A perda da visão pode ser definitiva sem tratamento cirúrgico imediato.

O glaucoma também representa um grave perigo, sobretudo, pelas características assintomáticas nas fases iniciais, retardando o diagnóstico. A identificação precoce depende da rotina de consultas periódicas ao oftalmologista para medição da pressão intraocular e avaliação do nervo óptico. Se não for controlado, o glaucoma causa cegueira irreversível, diferentemente da catarata.

O principal grupo vulnerável ao avanço da miopia são as crianças e os adolescentes, cujo globo ocular está em fase ativa de desenvolvimento. Embora a genética seja um fator preponderante na predisposição, o excesso de atividades em ambientes fechados com foco em visão de perto e a privação de exposição à luz natural são os principais fatores ambientais associados ao aumento global dos casos.

Os estudos epidemiológicos, como os revisados no British Journal of Ophthalmology, apontam que, em determinadas regiões do mundo — como no leste e sudeste asiático —, a questão já atinge proporções epidêmicas, afetando a grande maioria dos jovens em idade escolar, apresentando dificuldades crônicas para focar objetos à distância sem correção óptica.

A miopia em adultos jovens costuma estar estabilizada, porém o excesso de carga de trabalho para perto e o uso prolongado de telas induzem um quadro de espasmo de acomodação (pseudomiopia) ou a pequenos progressos do grau por estresse visual adaptativo. O esforço acomodativo contínuo causa fadiga visual, entretanto não deve ser confundido com presbiopia, perda paulatina da capacidade de foco para perto, decorrente do envelhecimento natural do cristalino.

A prevenção e o controle da progressão requerem hábitos, como pausas programadas durante o uso de telas e a exposição regular à luz solar. A radiação luminosa natural estimula a liberação de dopamina na retina, neurotransmissor que atua como um inibidor natural do crescimento axial excessivo do globo ocular.

Durante os momentos de descanso, recomenda-se focar em objetos distantes (técnica 20-20-20). Os óculos devem estar sempre com a prescrição atualizada e, quando indicado, podem ser associados a tratamentos ópticos específicos para o controle da progressão, como lentes ou terapias farmacológicas como a atropina em baixas doses.

O acompanhamento médico contínuo é indispensável. A recomendação geral é uma avaliação anual com o oftalmologista para exame de refração, avaliar a integridade do fundo de olho (mapeamento de retina) e monitorar a evolução estrutural do órgão.

A miopia pode ser corrigida cirurgicamente com a cirurgia refrativa, opção para eliminar ou reduzir a dependência de óculos ou lentes de contato. O procedimento LASIK é um dos métodos mais difundidos, usando o excimer laser para remodelar o estroma corneano e corrigir o erro refrativo. O procedimento cirúrgico é bilateral, dura poucos minutos por olho e proporciona uma rápida recuperação visual e pós-operatória.

*Oftalmologista

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