Como viver melhor mesmo sabendo que tudo termina

Publicado em 04/07/2026 às 06:00.

Mauro Condé*


“A vida não é um problema a ser resolvido ... é um mistério a ser amadurecido.”

Vivemos numa época que desconfia do silêncio.

Queremos respostas antes das perguntas amadurecerem. Queremos curar antes de compreender. Preencher vazios antes de descobrir o que eles guardam.

Talvez uma das dores do nosso tempo seja esta: desaprendemos a conviver com aquilo que ainda não tem nome.

Conta-se que um jovem poeta admirava um velho jardineiro que lhe entregou uma carta com uma única instrução:

“Só abra quando a solidão doer mais que o silêncio.”

O tempo passou. O jovem tornou-se escritor ... recebeu aplausos ... construiu uma obra admirada.

Por fora ... jardins de reconhecimento.

Por dentro ... uma terra esperando chuva.

Numa noite tenebrosa ... abriu a carta.

Havia apenas uma frase:

“Pare de pedir ao mundo respostas para perguntas que só florescem dentro de você.”

Na manhã seguinte ... voltou ao jardim do velho.

Tudo parecia morto.

A terra seca. As árvores imóveis. Nenhum sinal de vida.

Mesmo assim ... começou a cuidar daquele chão.

Regou por dias ... depois semanas ... depois meses.

Até que ... numa manhã ... algo invisível rompeu a superfície:

Uma pequena flor nasceu carregando no centro uma gota de orvalho que parecia ter guardado a noite inteira.

Foi quando compreendeu:

Algumas respostas não chegam como pensamentos.

Chegam como raízes.

Chegam quando deixamos de fugir de nós mesmos.

Essa história me levou a uma viagem por meio de livros até grandes poetas.

Encontrei em 1926 ... em Montreux ... na Suíça ... Rainer Maria Rilke ... autor de “Cartas a um Jovem Poeta”.

Perguntei-lhe ... ensina-me algo que eu ainda não saiba e possa mudar a minha vida.

Ele respondeu:

- Maturidade não nasce quando acumulamos respostas ... mas quando encontramos coragem para habitar perguntas difíceis sem desespero.

Rilke nos lembra que solidão não é ausência de amor.

Às vezes ... é o espaço onde a alma deixa de fugir de si mesma.

O perigo não está em estar só ... mas em transformar a solidão em isolamento: uma prisão onde já não escutamos o mundo nem nosso próprio coração.

Talvez aquilo que hoje parece vazio em você seja apenas a vida trabalhando em segredo.

Leia Rilke.

E descubra que certos silêncios não são o fim de nada.

São o começo de algo que ainda está aprendendo a nascer.

*  Palestrante ... Consultor e Fundador do Blog do Maluco.

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