Mauro Condé*
Vivemos numa época que desconfia do silêncio.
Queremos respostas antes das perguntas amadurecerem. Queremos curar antes de compreender. Preencher vazios antes de descobrir o que eles guardam.
Talvez uma das dores do nosso tempo seja esta: desaprendemos a conviver com aquilo que ainda não tem nome.
Conta-se que um jovem poeta admirava um velho jardineiro que lhe entregou uma carta com uma única instrução:
“Só abra quando a solidão doer mais que o silêncio.”
O tempo passou. O jovem tornou-se escritor ... recebeu aplausos ... construiu uma obra admirada.
Por fora ... jardins de reconhecimento.
Por dentro ... uma terra esperando chuva.
Numa noite tenebrosa ... abriu a carta.
Havia apenas uma frase:
“Pare de pedir ao mundo respostas para perguntas que só florescem dentro de você.”
Na manhã seguinte ... voltou ao jardim do velho.
Tudo parecia morto.
A terra seca. As árvores imóveis. Nenhum sinal de vida.
Mesmo assim ... começou a cuidar daquele chão.
Regou por dias ... depois semanas ... depois meses.
Até que ... numa manhã ... algo invisível rompeu a superfície:
Uma pequena flor nasceu carregando no centro uma gota de orvalho que parecia ter guardado a noite inteira.
Foi quando compreendeu:
Algumas respostas não chegam como pensamentos.
Chegam como raízes.
Chegam quando deixamos de fugir de nós mesmos.
Essa história me levou a uma viagem por meio de livros até grandes poetas.
Encontrei em 1926 ... em Montreux ... na Suíça ... Rainer Maria Rilke ... autor de “Cartas a um Jovem Poeta”.
Perguntei-lhe ... ensina-me algo que eu ainda não saiba e possa mudar a minha vida.
Ele respondeu:
- Maturidade não nasce quando acumulamos respostas ... mas quando encontramos coragem para habitar perguntas difíceis sem desespero.
Rilke nos lembra que solidão não é ausência de amor.
Às vezes ... é o espaço onde a alma deixa de fugir de si mesma.
O perigo não está em estar só ... mas em transformar a solidão em isolamento: uma prisão onde já não escutamos o mundo nem nosso próprio coração.
Talvez aquilo que hoje parece vazio em você seja apenas a vida trabalhando em segredo.
Leia Rilke.
E descubra que certos silêncios não são o fim de nada.
São o começo de algo que ainda está aprendendo a nascer.
* Palestrante ... Consultor e Fundador do Blog do Maluco.
