Criptomoedas e ações: semelhanças não são por acaso

Publicado em 13/05/2022 às 06:00.

Samyr Castro*

Investir em criptomoedas é uma prática que está cada vez mais semelhante ao universo da Bolsa de Valores. Em especial, são ainda mais parecidas quando pensamos em ações de empresas de tecnologia. Entre os motivos para isso está a recente criação do metaverso, que tem levado cada vez mais empresas atuantes no mercado financeiro tradicional a participarem do mercado de cripto.

Podemos explicar este fenômeno considerando que a invenção dos universos digitais é construída em torno de criptomoedas e tem levado diversas companhias globais importantes a anunciarem planos de vender tudo o que puderem no metaverso. É o caso da consultoria PwC, que comprou imóveis no The Sandbox, um mundo de jogos virtuais, por um valor não revelado. Recentemente, um terreno no Snoopverse — um mundo virtual que o rapper Snoop Dogg está desenvolvendo dentro do The Sandbox — foi vendido por US$ 450 mil (R$ 2,5 milhões).

Este cenário vem fazendo com que as criptomoedas fiquem cada vez mais parecidas com ações e commodities do que com moedas tradicionais. Isso porque as várias análises quantitativas provam que muitas criptos não operam mais de forma independente; elas não apenas enxergam umas às outras, como também interagem entre elas. Ou seja, esse mercado hoje opera correlacionado.

De acordo com um estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Física Nuclear da Academia de Ciências da Polônia (IFJ PAN), há uma forte correlação entre as Bolsas e as oscilações das moedas digitais. Os poloneses descobriram que, durante a pandemia, a volatilidade das moedas digitais atingiu a maior correlação já verificada com o índice S&P 500 da Bolsa de Nova York. Essa sincronia também foi notada com as cotações de commodities como o barril de petróleo, cobre e ouro.

Para entender o comportamento de ações e criptomoedas no contexto atual, precisamos considerar que, após a retomada das economias no período pós-pandemia, observamos o aumento da inflação em praticamente todos os países. Para tentar conter esse aumento, um dos principais instrumentos utilizados pelos Bancos Centrais é a taxa de juros. Por isso, aqui no Brasil, vimos a taxa Selic passar de 2% no início de 2021 para 11,75% em março deste ano.

Ao aumentar a taxa de juros, as autoridades monetárias esperam controlar a demanda de duas maneiras: reduzindo a procura por empréstimos (o que tende a diminuir o investimento empresarial e o consumo) e aumentando a atratividade dos investimentos de renda fixa - o que teoricamente leva a população a preferir investir do que gastar.

A redução do consumo e do investimento empresarial tendem a impactar as expectativas sobre o crescimento das empresas listadas em bolsa, afetando também a percepção sobre o preço das ações.

Além disso, quando há aumento nos juros, o rendimento dos investimentos de renda fixa tende a ficar mais atrativo. Como são investimentos considerados menos arriscados quando comparados aos de renda variável, é comum que, a partir de avaliações de risco e retorno, o aumento da rentabilidade leve investidores a migrar parte de sua alocação em renda variável para renda fixa. Esse movimento tende a afetar a demanda pelos ativos de renda variável e, assim, impactando seu preço.

Por isso, quando um Banco Central anuncia que irá aumentar os juros acima do que era esperado pelo mercado, é comum que o desempenho do índice de ações daquele país seja impactado negativamente. No caso de países influentes, como os Estados Unidos, o aumento dos juros tende a impactar não só os ativos locais, mas investimentos de renda variável em todo o mundo. É por essa razão que, mesmo as criptomoedas sendo globais e descentralizadas, elas não estão livres de serem impactadas pelo aumento de juros do Tesouro Americano.

Nos Estados Unidos, o ciclo de aumento dos juros teve início em março deste ano, e a inflação por lá já está em 8,5% no acumulado de 12 meses. As expectativas atuais são de que as taxas do Tesouro Americano sejam elevadas até o patamar neutro, em torno de 2%. Entretanto, pressões inflacionárias maiores podem levar a aumento nas expectativas de juros, o que pode abalar ainda mais investimentos de renda variável, como as ações e as criptomoedas.
Se antes o mundo das criptomoedas parecia distante da bolsa de valores, hoje a realidade é que esses dois mercados estão cada vez mais próximos, afinal o mundo mudou. A pandemia trouxe transformações e o metaverso promete consolidá-las completamente. Agora, é hora de traçar estratégias para se posicionar da melhor maneira neste universo digital.

*CEO do Bank Rio e Conselheiro InvestSmart

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