Desafios da EJA ampliados pela pandemia

Publicado em 23/06/2022 às 06:00.

Suely Menezes*

No contexto brasileiro de educação básica, a pandemia de Covid-19 promoveu ampliação dos desafios, em especial para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). O período salientou as dificuldades de infraestrutura de escolas, recursos tecnológicos limitados ou até mesmo inexistentes, capacitação docente, desaparelhamento discente e despreparo para gestão da crise pela mudança repentina das formas de oferta curricular. 

Além de todas essas problemáticas, a trajetória desse público é marcada por interrupções antes mesmo da pandemia. Geralmente, ocorrem por necessidades de trabalho e geração de renda, obrigações com o sustento de família, ou outras condições que lhes foram impostas ao longo da vida. 

Como consequência direta disso está a evasão escolar, como mostra o último Censo de Educação Básica e divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que registrou redução de 7,7% nas matrículas em 2020, representando em torno de 58 mil estudantes a menos do que em 2019.

Vale ressaltar que a redução das matrículas e das escolas dedicadas à oferta de EJA vem acontecendo ao longo da última década, tendo a pandemia apenas agravado esse quadro. As dificuldades vão muito além da vivência do calendário letivo: elucida a urgência de revisão das políticas públicas de financiamento, de investimento na infraestrutura tecnológica, fortalecimento de formação docente e desenvolvimento de metodologias adequadas para o público da EJA, composto por jovens, adultos e idosos. 

É preciso avançar para conceitos de sistemas educacionais ao longo da vida e que valorizam a educação formal e informal, ou seja, dentro e fora da escola. A formação de adultos precisa ser mais abrangente, visando educação continuada, reconhecimento de saberes que o aluno já possui e certificação de competências, superando a visão de suplência, ou simples correção de fluxo escolar. 

Também gosto de lembrar que estamos falando de uma população economicamente produtiva e que trabalha, gera renda e desenvolvimento, paga impostos e consome serviços, produtos, mesmo com escolaridade incompleta ou de baixa qualidade. Vem daí a importância de políticas de inclusão digital e que garanta a democratização do ensino, por meio do acesso e, principalmente, da permanência desse aluno na escola. Assim, todo esse potencial será mais bem explorado e devolvido para a própria sociedade, na forma de profissionais qualificados e que consomem mais bens e serviços.
 
Já está bastante claro que, em meio à pandemia, a desigualdade social e de aprendizagens é ainda mais grave e vem minando as chances dos menos favorecidos em alcançar uma educação de qualidade, seja por falta de estrutura, apoio e incentivo, tempo para os estudos, formação adequada de professores, entre outros motivos. 

Para além dos problemas estruturais e exaustivamente comentados, há ainda a questão do desenvolvimento de habilidades socioemocionais, que, embora pouco explorado, é importante para que o aluno consiga tomar melhores decisões, gerir os próprios recursos e tempo, tenha empatia, autonomia, responsabilidade e saiba conviver bem com seus pares, em meio às diferenças que, naturalmente, existem. 

É um momento muito desafiador para a educação, mas as metodologias precisam ser alinhadas às necessidades reais dos alunos, que têm diferentes graus de complexidade, já que a EJA contempla populações ribeirinhas, trabalhadores rurais e urbanos, mães solo, egressos prisionais, entre outros grupos com algum tipo de vulnerabilidade. A enorme bagagem cultural desses alunos e suas experiências sociais e profissionais, os aprendizados plurais acumulados ao longo de suas trajetórias devem ser convertidos em integração e valorização do outro. 

Acredito que toda a crise gerada pela pandemia deve ser encarada também como uma oportunidade – única, e que não pode ser desperdiçada – de criar políticas públicas prioritárias para a EJA, adotando estratégias que incluam verdadeiramente esse público. É preciso considerar que a escola não será o que foi antes da pandemia. Por isso, se dá a necessidade de investir na educação híbrida como metodologia que favoreça a ampliação de tempo e os espaços dos processos de ensino e aprendizagem, que vai desde a formação do docente até a familiarização de alunos com dispositivos eletrônicos. Assim, será possível promover o fortalecimento dos canais de comunicação, que garantem a compreensão de mensagens e informações a fim de estabelecer vínculos – entre alunos, professores e comunidade escolar –, para reduzir os índices de evasão.

Consultora na Mind Lab. Pedagoga com habilitação em Administração Escolar. Presidente da Câmara de Educação Básica do CNE

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2022Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por