João Victor Batista Bueno*
O e-commerce na América Latina cresceu de forma acelerada nos últimos anos, principalmente devido a pequenos e médios empreendedores que encontraram nos marketplaces uma porta de entrada acessível para o mundo das vendas online. Começar é relativamente simples: um cadastro, alguns anúncios e os primeiros pedidos chegam. O problema, porém, aparece quando o negócio começa a crescer.
Mais pedidos significam mais complexidade. Um seller que começa vendendo em um único canal logo se vê diante de um cenário diferente: múltiplas plataformas, estoques para controlar, notas fiscais para emitir, etiquetas para imprimir, devoluções para processar e dados espalhados em diferentes sistemas. Com isso, o que antes era gerenciado em uma planilha ou no próprio painel do marketplace passa a exigir uma estrutura mais complexa.
Ao meu ver, esse é um ponto de virada importante que ajuda a separar os sellers que conseguem escalar daqueles que ficam presos no improviso. Isso porque vender mais sem estrutura adequada cria um cenário desafiador, com o aumento de receita acompanhado pelo aumento de erros, retrabalho e custos operacionais que resulta em pedidos enviados com o produto errado, estoque desatualizado que gera venda de itens sem disponibilidade, notas fiscais emitidas manualmente com risco de inconsistência e atrasos na expedição que comprometem a reputação nas plataformas. Cada um desses problemas, isoladamente, é administrável. Porém, juntos, podem comprometer o crescimento dos negócios.
A transição do improviso para a gestão estruturada não acontece de uma hora para outra, e começa com uma mudança de mentalidade: entender que o negócio precisa de processos, não apenas de esforço. E que ferramentas de gestão não são um luxo reservado para grandes operações, mas uma necessidade que se torna evidente assim que o volume começa a crescer.
Nesse processo, algumas medidas simples podem fazer a diferença. O primeiro passo é identificar o maior gargalo da operação e concentrar esforços nele, em vez de tentar automatizar tudo de uma vez. Depois, vale acompanhar mensalmente pelo menos três indicadores essenciais: volume de pedidos, taxa de erros e margem de lucro, para entender se o crescimento está de fato sendo sustentável.
Por fim, à medida que a operação ganha volume, é importante avaliar quais tarefas consomem mais tempo e podem ser automatizadas, liberando o seller para atividades mais estratégicas.
A América Latina ocupa uma posição de destaque no crescimento global do comércio eletrônico: segundo dados da eMarketer, ela liderou o crescimento global do e-commerce em 2025, com expansão de 12,2% nas vendas do varejo online, ritmo 1,5 vez superior à média mundial, impulsionada pela penetração de smartphones, expansão dos meios de pagamento digitais e crescimento dos grandes marketplaces regionais. Essa evolução, no entanto, traz um desafio estrutural: a maioria dos vendedores que ingressaram nesse mercado durante o boom dos últimos anos ainda opera com processos pouco estruturados.
Temos exemplos de mercados mais maduros que estão lidando bem com essa questão, como o americano e asiático, que têm investido na profissionalização dos sellers de médio porte. Com isso, os vendedores ficam mais preparados para operar com eficiência em múltiplos canais, com gestão integrada e processos automatizados, resultando em melhores margens, menor taxa de erros e maior capacidade de resposta às mudanças de demanda.
Acredito que o e-commerce latino-americano está em um momento de transição, e a fase do improviso criativo, que foi essencial para que muitos empreendedores dessem os primeiros passos, está cedendo espaço a uma nova etapa, marcada pela gestão estruturada, automação e profissionalização da operação.
* Especialista em Gestão da Marca da UpSeller