Domínio Mineral Chinês

Publicado em 04/02/2026 às 07:00.

*Marcio Coimbra


A recente aquisição de subsidiárias da canadense Equinox Gold pela gigante CMOC, em uma transação de US$ 1 bilhão, não é apenas um movimento de mercado, é um marco geoeconômico. Ao assumir o controle das minas de Aurizona (MA), Riacho dos Machados (MG), Fazenda e Santa Luz (BA), a estatal chinesa não apenas expande seu faturamento – que atingiu R$ 5,6 bilhões em 2025 –, mas verticaliza seu domínio sobre recursos que são, em última análise, ativos estratégicos da soberania brasileira.

A CMOC consolidou-se no Brasil operando nióbio e fertilizantes desde 2016. Ao absorver o ouro da Equinox, a empresa diversifica seu portfólio em um momento de valorização histórica do metal. Contudo, o ponto nevrálgico é a internalização das etapas produtivas. Ao controlar a extração em solo nacional e a comercialização global via sua trading, a IXM, Pequim consolida seu domínio sobre as etapas da cadeia produtiva. Para o Brasil, resta a exportação de baixo valor agregado e o recebimento de royalties, enquanto a inteligência estratégica sobre o destino desses minerais é transferida para a China.

O interesse chinês é cirúrgico. O ouro tornou-se o refúgio supremo diante da instabilidade entre os blocos ocidentais e asiáticos em 2026. Todavia, o verdadeiro foco geopolítico reside nos minerais críticos. O Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio, material indispensável para ligas de aço de alta resistência e supercondutores. A vulnerabilidade reside em permitir que o controle desses ativos – onde o país possui um monopólio geológico – seja concentrado em um único ator estatal estrangeiro, sem que haja contrapartidas em transferência tecnológica ou agregação de valor em solo nacional.

O cerne do problema é a profunda assimetria regulatória. Enquanto EUA, Austrália e a própria China endureceram legislações para monitorar investimentos estrangeiros em setores estratégicos, o Brasil carece de um mecanismo de triagem (screening) institucionalizado. Sem um equivalente ao CFIUS norte-americano, o Estado vê-se desprovido de base legal para avaliar se a transferência de ativos compromete a autonomia futura. Opera-se sob uma lógica comercial de curto prazo, negligenciando que a soberania hoje é exercida pelo controle das cadeias de suprimentos. Em essência: O Brasil está vulnerável.

A hegemonia chinesa reside no processamento químico, onde domina 90% da capacidade global de refino. Possuir reservas abundantes é inútil se a tecnologia de separação reside além-mar. Se o Brasil não exigir o refino doméstico, continuará a ser um exportador de solo e um importador de futuro, fornecendo ingredientes para uma revolução tecnológica da qual não é convidado a participar.

A criação de um marco legal de investimentos estratégicos deixou de ser uma opção burocrática para tornar-se uma imperatividade de sobrevivência. O Brasil precisa compreender que, no xadrez de 2026, nem todo dólar possui o mesmo peso. Instituir filtros não significa repelir capital, mas exercer a prerrogativa de um Estado soberano que protege sua inteligência e seus recursos estratégicos inalienáveis.

*Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-eiretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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