Camila Caetano*

Coxas flácidas com tronco mais esguio. Pernas e joelhos rechonchudos, mas com quadris mais estreitos. Glúteos volumosos, desproporcionais aos membros inferiores. Se você percebe contrastes assim em você ou em outra pessoa, saiba que pode estar diante de um quadro de lipedema. O nome pode soar pouco familiar, mas ele é mais comum do que talvez você imagine.
Um artigo publicado na edição de janeiro-fevereiro deste ano nos Anais Brasileiros de Dermatologia, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), aponta que, entre os países europeus, a recorrência de lipedema varia entre 0,06% e 39% da população. Já no Brasil, segundo os autores, estima-se que a doença acometa 12,3% das mulheres, o que equivale a uma população de aproximadamente 8,8 milhões de pessoas.
Porém, mais importante do que os números é a manifestação do lipedema. Ele é caracterizado por um acúmulo desproporcional de gordura numa região específica do corpo – destacando-se de todo o restante. É comum esse acúmulo vir acompanhado de sensibilidade ao toque e desconforto. Como a doença atinge quase que exclusivamente as mulheres, são elas que devem manter mais atenção ao diagnóstico.
Aliás, a preocupação com o diagnóstico é fundamental, sobretudo porque o lipedema raramente é identificado precocemente. Via de regra, ele é confundido com obesidade, direcionando as atenções para soluções que nem sempre são suficientes para minimizar o problema. É isso o que motiva a realização do Junho Roxo, período em que são intensificadas as campanhas de conscientização sobre a doença. O primeiro passo é saber identificar as nuances.
A principal delas é a distribuição da gordura. Enquanto o lipedema se manifesta em regiões específicas – principalmente quadris, pernas, glúteos e ocasionalmente os braços –, a obesidade é mais distribuída, podendo alcançar o tronco, o abdômen e o pescoço. Além disso, essa concentração desproporcional de gordura costuma ser acompanhada de dores e sensibilidade.
O fato de haver tratamento já é um alento. Embora seja uma condição crônica, existem técnicas eficazes para controlar seus efeitos. Mas é necessário entender que isso exige dedicação por parte da paciente. A primeira medida é adotar uma dieta rica em alimentos anti-inflamatórios, como aqueles ricos em Ômega 3, bem como vegetais e folhas escuras, frutas vermelhas e cítricas. Além disso, recomenda-se manter hidratação constante e fugir de alimentos ultraprocessados e ricos em sódio e gordura.
Manter atividades físicas regulares, usar meias compressoras, submeter-se a sessões de drenagem linfática e fazer uso de medicamentos que reduzem o inchaço também são métodos que auxiliam na redução das dores e na melhoria da qualidade de vida, mas esses procedimentos só podem ser iniciados sob recomendação médica. Ainda que o lipedema envolva incertezas de ordem estética, o foco de seu tratamento deve ser em relação à qualidade de vida.
O Junho Roxo, portanto, nos lembra que, na ciência, nem tudo é necessariamente aquilo com que se parece. Muitos pacientes sofrem anos a fio com sensibilidade e até com dores por acreditarem erroneamente que se trata de outra coisa. A partir do diagnóstico do lipedema e a real indicação de um tratamento que ataque os sintomas certos, a qualidade de vida tende a aumentar com profundidade.
* Cirurgiã vascular pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV)