Entre algoritmos e repertório: o que levamos do SXSW 2026

Publicado em 08/04/2026 às 06:00.

Manuela Bertoletti*
Vinícius Ghise**

Se a inteligência artificial está tornando tudo mais acessível, por que ainda é tão difícil se diferenciar? Foi a partir dessa provocação que acompanhamos, como representantes da Abradi (Associação Brasileira dos Agentes Digitais), o South by Southwest (SXSW) 2026, um dos principais eventos globais de inovação, cultura e negócios, realizado em Austin, no Texas. Em meio a uma avalanche de conteúdos, ferramentas e promessas tecnológicas, a pergunta que atravessou o evento não foi sobre o que a IA é capaz de fazer, mas sobre o que ainda depende essencialmente de nós.

Ao longo de dias intensos, ficou evidente que a inteligência artificial deixou de ser tendência para se consolidar como infraestrutura. Ela já não ocupa apenas um lugar operacional, mas passa a sustentar decisões, processos e modelos de negócio inteiros. O que está em jogo não é mais a adoção da tecnologia, mas a forma como nos reorganizamos a partir dela.

O evento mais uma vez se mostrou um termômetro preciso das transformações em curso. A IA esteve no centro de praticamente todas as discussões, refletindo um momento em que empresas e profissionais tentam entender como operar em um ambiente cada vez mais automatizado, veloz e, ao mesmo tempo, mais homogêneo.

Uma das percepções mais marcantes foi o efeito democratizador da IA. Ao ser construída, em grande parte, sobre dados públicos, ela amplia o acesso às capacidades de produção e análise. Isso tende a nivelar o jogo entre empresas e profissionais. Ao mesmo tempo, traz um efeito colateral importante: quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, os resultados começam a se parecer. Nesse contexto, o diferencial competitivo deixa de estar na tecnologia em si e passa para aquilo que não pode ser replicado facilmente, como repertório, vivência, contexto e a forma como cada um interpreta e direciona essas possibilidades.

Também ficou claro que a IA já não pode ser vista apenas como uma ferramenta. Ela se estabelece como uma espécie de infraestrutura cognitiva, invisível e onipresente, capaz de redesenhar processos, fluxos de trabalho e modelos inteiros de negócio. Isso exige uma mudança de postura das agências e das empresas. Não basta mais incorporar a tecnologia de forma pontual. É necessário avançar para um modelo verdadeiramente integrado, em que a inteligência artificial esteja na base das decisões estratégicas e da cultura organizacional.

Essa transformação aponta para um novo nível de maturidade. Deixar de ser apenas “AI-enabled” para operar como “AI-native” implica repensar não só processos, mas também mentalidade. Significa entender que a tecnologia não é um suporte, mas parte estruturante da forma como pensamos, criamos e entregamos valor.

Ao mesmo tempo, há uma mudança mais ampla no próprio ambiente digital. A internet passa a ser cada vez mais mediada por agentes autônomos, alterando a forma como consumimos, produzimos e distribuímos conteúdo. Em um cenário de abundância e, muitas vezes, de saturação de conteúdos gerados por IA, valores como confiança, autenticidade e consistência ganham ainda mais importância para as marcas.

Paradoxalmente, quanto mais avançamos tecnologicamente, mais evidente se torna o valor do fator humano. O senso crítico, a curadoria, a criatividade e a capacidade de estabelecer conexões significativas emergem como ativos centrais. Em um mundo onde quase tudo pode ser automatizado, o olhar humano passa a ser o verdadeiro elemento de diferenciação.

Do ponto de vista pessoal, o que mais nos marcou no evento foram justamente as perspectivas inesperadas e os encontros que ampliam o olhar. Em meio a tantas discussões sobre tecnologia, são essas experiências que reforçam uma visão otimista sobre o futuro. A inovação continua sendo, antes de tudo, uma construção humana.

Participar do SXSW 2026 reforça a importância de manter o Brasil conectado às discussões globais mais relevantes. Como representantes da Abradi, voltamos com a convicção de que nosso papel é seguir promovendo essas conexões, ampliando repertórios e contribuindo para que o ecossistema digital brasileiro evolua de forma consistente, crítica e competitiva.

* Diretora de Comunicação e Marca da Abradi (Associação Brasileira dos Agentes Digitais)

** Presidente da Abradi RS

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