Livia Rocha*

As previsões de que o fenômeno El Niño poderá voltar a influenciar o clima brasileiro nos próximos meses acenderam um alerta em diversos setores da economia. Segundo projeções do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a probabilidade de ocorrência do fenômeno no segundo semestre de 2026 é de 82%. Para muita gente, essa parece ser apenas uma informação meteorológica. Para quem vive a gestão no dia a dia, ela representa algo muito maior: uma oportunidade de planejamento.
Uma das principais diferenças entre empresas que crescem de forma consistente e aquelas que vivem apagando incêndios está na capacidade de antecipação. Nenhum empresário consegue controlar o clima, a economia, a inflação ou o comportamento do consumidor. Mas todos podem decidir como irão se preparar diante desses cenários. Gestão não é prever o futuro, mas estar pronto quando ele chega.
Quando as temperaturas caem, o comportamento das pessoas muda. A procura por antigripais, antialérgicos, soluções para higiene nasal, vitaminas e produtos voltados ao fortalecimento da imunidade costuma aumentar significativamente. Nas farmácias, esse movimento é percebido rapidamente. Mas ele não acontece apenas nesse segmento. O comércio de roupas de inverno, cobertores, aquecedores, bebidas quentes e diversos produtos ligados ao conforto também sente os efeitos das mudanças climáticas. O consumidor reorganiza suas prioridades e as empresas precisam acompanhar esse movimento.
No varejo farmacêutico, essa preparação vai muito além da compra de medicamentos. A equipe precisa estar preparada para orientar os clientes, fazer perguntas adequadas, identificar situações que exigem encaminhamento para atendimento médico e oferecer um atendimento mais acolhedor. Em períodos de maior circulação de doenças respiratórias, a farmácia se torna, muitas vezes, o primeiro ponto de contato da população com o sistema de saúde. Isso exige conhecimento técnico, organização e responsabilidade.
Outro aspecto que merece atenção é a comunicação. Hoje, as dúvidas das pessoas começam, na maioria das vezes, pela internet. Quando um determinado assunto passa a preocupar a população, as buscas nas plataformas digitais aumentam e os algoritmos passam a entregar conteúdos relacionados àquele tema. Empresas que conseguem produzir informação útil, esclarecer dúvidas e orientar seus clientes deixam de fazer apenas publicidade e passam a construir relacionamento e confiança.
Planejamento não elimina as incertezas, porém pode reduzir as surpresas. E, em um mercado cada vez mais competitivo, essa diferença pode representar muito mais do que um bom resultado financeiro. Pode significar a capacidade de atender melhor o cliente, fortalecer a equipe e transformar desafios em oportunidades.
No fim das contas, o El Niño pode ou não confirmar todas as previsões climáticas. Mas existe uma certeza que vale para qualquer cenário: empresas que esperam as mudanças acontecerem sempre correm atrás do prejuízo. Já aquelas que transformam informação em estratégia chegam mais preparadas para qualquer estação.
*Consultora em gestão de empresas; fundadora e CEO da LVR Aceleradora de Empresas