Junho chega com bandeirinhas, corações e a conta que o contribuinte sempre paga

Publicado em 02/06/2026 às 06:00.

Gregório José*


Junho é um mês especial para os brasileiros.

Tem Festa Junina, com fogueira, quadrilha e milho verde. Tem Dia dos Namorados, com flores, jantares e promessas de amor eterno que, muitas vezes, duram menos que o parcelamento do presente. Tem Copa do Mundo, capaz de fazer o país esquecer por noventa minutos os próprios problemas e acreditar novamente que tudo pode dar certo.

Mas junho também reserva uma data menos festiva.

No dia 16, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgará o montante de recursos disponíveis no Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o famoso fundão eleitoral.

E aí termina a festa do povo e começa a festa da política.

É curioso observar como o Brasil consegue conviver com tantas realidades ao mesmo tempo. Enquanto milhões de famílias fazem contas para pagar a prestação do carro, o aluguel, o supermercado e a conta de luz, partidos políticos aguardam ansiosamente a divulgação de bilhões de reais em dinheiro público para financiar campanhas eleitorais.

Não importa se falta médico em postos de saúde. Não importa se há escolas precisando de reformas. Não importa se estradas permanecem esburacadas ou se municípios lutam para fechar as contas no fim do mês.

Quando chega a temporada eleitoral, o dinheiro aparece. E aparece em abundância.

O cidadão comum precisa justificar cada centavo de sua renda para sobreviver. O político recebe recursos que saem exatamente do bolso desse cidadão para convencê-lo de que merece continuar no poder.

É uma engenharia que desafia a lógica.

O eleitor paga a campanha. O candidato faz a campanha. O candidato é eleito. E depois o eleitor continua pagando a conta.

O mais impressionante é que boa parte da população sequer sabe quanto custa uma eleição. Não conhece os valores distribuídos aos partidos, não entende os critérios de divisão dos recursos e muitas vezes descobre apenas depois que bilhões de reais foram destinados a material de campanha, marketing, produção audiovisual e estruturas eleitorais.

Junho é o mês das bandeirinhas coloridas balançando nas praças. Mas também deveria ser o mês da reflexão sobre as prioridades nacionais.

Porque enquanto o país se emociona com gols, celebra amores e dança forró, a máquina política segue funcionando com eficiência admirável quando o assunto é garantir recursos para si mesma.

Nenhum político gosta de discutir o fundão em campanha. Preferem falar de futuro, esperança, desenvolvimento e mudança. Afinal, é mais confortável prometer soluções do que explicar por que campanhas milionárias continuam sendo financiadas por uma população que enfrenta dificuldades cada vez maiores para fechar as próprias contas.

O problema não está na democracia. Eleições custam dinheiro em qualquer lugar do mundo. O problema é quando o custo da política parece crescer em velocidade muito superior à capacidade do país de resolver seus problemas mais básicos.

Junho chegou.

Entre fogueiras, declarações apaixonadas e transmissões esportivas, o brasileiro terá mais uma oportunidade de lembrar que existe uma festa da qual participa todos os anos.

Uma festa para a qual não recebe convite.

Mas da qual paga integralmente a conta.

* Jornalista, radialista, filósofo. Pós Graduado em Gestão Escolar. Pós Graduado em Ciências Políticas. Pós Graduado em Mediação e Conciliação. MBA em Gestão Pública

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