René Dentz*

Na prática clínica, uma cena se repete com inquietante frequência: pessoas chegam dizendo que “amam”, mas descrevem relações em que não são vistas; convivem, mas não são escutadas; falam, mas não são reconhecidas. Há vínculo, mas falta encontro. É o retrato dos relacionamentos marcados pelo narcisismo - quando o amor deixa de ser espaço de troca e se torna um palco onde apenas uma precisa brilhar.
A psicanálise, desde Sigmund Freud, já indicava que o narcisismo não é simplesmente vaidade. Trata-se de um modo de relação em que o sujeito se fecha em si mesmo e transforma o outro em extensão de sua própria necessidade de confirmação. Não se ama alguém - ama-se a imagem que esse alguém sustenta.
E aqui está o ponto mais incômodo: quem entra nesse tipo de relação, quase sempre, não percebe de imediato. Pelo contrário, há encanto. Intensidade. Uma sensação de ser finalmente escolhido, visto, desejado. Mas essa “eleição” tem um preço silencioso: para continuar sendo amado, é preciso corresponder à imagem que o outro construiu.
É nesse ponto que o narcisismo toca algo ainda mais delicado na teoria psicanalítica: sua proximidade com a perversão. Não no sentido vulgar do termo, mas naquilo que Jacques Lacan descreve como uma posição subjetiva em que o sujeito se coloca como aquele que sabe - e, a partir disso, organiza o desejo do outro.
Nas relações com traços narcísicos e perversos, não se trata apenas de ignorar o outro, mas de moldá-lo. Há manipulação, inversão de culpa, distorção de fatos. O outro começa a duvidar da própria percepção, da própria memória, da própria sensibilidade. Não raro, escuta frases como: “você está exagerando”, “isso nunca aconteceu”, “o problema é você”. E assim, sem gritos, sem marcas visíveis, instala-se uma forma de violência profundamente eficaz: aquela que apaga o sujeito por dentro. O mais perturbador é que, de fora, muitas dessas relações parecem normais - até admiráveis. Não há escândalo, não há ruptura evidente. Há apenas um desequilíbrio silencioso, onde um existe demais e o outro de menos.
Romper com esse tipo de vínculo não é simples. Não basta “decidir ir embora”. É preciso reconstruir algo que foi corroído: a confiança em si mesmo. É um trabalho de reaprender a escutar a própria voz, de recuperar o direito de sentir, de desejar, de discordar. Em muitos casos, trata-se de um verdadeiro processo de luto - não apenas pela relação, mas pela imagem que se sustentou dela.
É preciso dizer com clareza: nem todo narcisismo é patológico. Todos precisamos, em alguma medida, de reconhecimento. Mas quando o outro deixa de existir como sujeito e passa a ser apenas função - quando sua presença serve apenas para sustentar a imagem de alguém - já não estamos diante de um amor, mas de uma encenação. E talvez a pergunta mais honesta, ainda que desconfortável, seja esta: nessa relação, você é alguém… ou apenas o papel que lhe deram para desempenhar? Porque o amor, quando é real, não exige plateia. Ele exige dois.
* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.