René Dentz*
Há uma pergunta que atravessa silenciosamente os consultórios de psicanálise, as conversas entre amigos e as redes sociais: por que tantas pessoas dizem querer um relacionamento sério, mas recuam justamente quando ele começa a se tornar verdadeiro?
Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil conhecer pessoas. Nunca houve tantas formas de comunicação, tantos aplicativos e tantas possibilidades de encontro. Ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil construir vínculos duradouros.
O que está acontecendo? A psicanálise oferece uma pista importante: amar nunca foi uma experiência confortável. Amar significa abrir espaço para que outra pessoa realmente nos afete. Significa perder a ilusão de controle, reconhecer nossas fragilidades e aceitar que toda relação importante envolve algum grau de risco.
Podemos supor que seja exatamente isso que nossa época esteja tentando evitar. Vivemos cercados por uma cultura que promete conforto permanente. Tudo precisa ser rápido, leve, descartável e sem grandes consequências. Aprendemos a trocar de celular, de emprego, de série, de cidade e, muitas vezes, também de pessoas. A lógica do consumo acabou invadindo os relacionamentos.
O problema é que muitos desistem exatamente nesse momento. Existe hoje um medo crescente do sofrimento. É compreensível. Todos carregam marcas, decepções e perdas. Entretanto, para evitar novas dores, muitas pessoas passaram a evitar também o envolvimento profundo. Criaram uma espécie de anestesia emocional.
Relacionam-se, mas sem se entregar. Conversam, mas evitam mostrar quem realmente são. Aproximam-se, mas deixam sempre uma porta aberta para partir a qualquer momento. O resultado é uma vida afetiva marcada pela superficialidade. Não porque as pessoas sejam incapazes de amar, mas porque aprenderam a sobreviver emocionalmente mantendo certa distância. Essa anestesia protege da dor, mas também impede a experiência da intimidade.
Toda relação verdadeira nos transforma. Obriga-nos a negociar desejos, rever certezas, abandonar fantasias e reconhecer limites. Isso exige maturidade emocional. Exige suportar momentos de frustração sem concluir imediatamente que a relação fracassou. Muitas vezes confundimos ausência de conflito com felicidade. Mas relações sem conflitos geralmente são relações sem profundidade.
A velocidade da vida também contribui para isso. Passamos horas diante das telas, recebendo estímulos constantes. Tudo muda rapidamente. Tudo parece substituível. Até mesmo as pessoas começam, inconscientemente, a ser percebidas dessa maneira. Perde-se a capacidade de esperar. Perde-se a capacidade de elaborar conflitos.
Perde-se, sobretudo, a capacidade de atravessar juntos os momentos difíceis. No entanto, são justamente essas travessias que fortalecem um relacionamento. A felicidade não nasce da ausência de dificuldades, mas da possibilidade de enfrentá-las ao lado de alguém. É provável que estejamos confundindo intensidade com profundidade. A intensidade pertence ao instante. A profundidade pertence ao tempo.
Os vínculos superficiais produzem poucas dores, mas também oferecem poucas transformações. Não exigem coragem, mas também não ampliam a existência. Mantêm a vida relativamente segura, porém emocionalmente empobrecida. Viver de maneira existencial significa aceitar que algumas experiências nos mudarão para sempre. Significa compreender que o amor não pode ser controlado como um aplicativo nem administrado como um contrato de consumo.
Relacionar-se é aceitar que haverá incertezas, diferenças, perdas e crescimento. Talvez a grande crise afetiva do nosso tempo não seja a falta de oportunidades para amar. Seja, antes, a dificuldade de suportar aquilo que torna o amor verdadeiramente humano: a vulnerabilidade, o compromisso e a coragem de permanecer quando seria muito mais fácil simplesmente ir embora.
* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz.