Mônica Campanha*

Se há uma habilidade que definitivamente não faz parte da minha formação é prever o futuro e, para ser sincera, nunca fui adepta de quem diz fazê-lo. Ainda assim, existe um momento do dia em que as previsões se tornam quase inevitáveis: no consultório.
Antes mesmo de abrir a lista de medicamentos, já é possível antecipar um padrão bastante frequente: um, dois, três… por vezes, uma verdadeira coleção de comprimidos no uso diário. Não se trata de coincidência, mas de um fenômeno cada vez mais comum na prática clínica.
Chamamos isso de polifarmácia: o uso simultâneo de múltiplos medicamentos. Com a onda de suplementos e vitaminas “indispensáveis” à saúde e ao envelhecimento saudável, pouca gente tem escapado a esta prática.
Nesse cenário, o uso de muitos medicamentos não é um desafio apenas pela quantidade, mas também pelos riscos envolvidos. A combinação de diferentes substâncias pode provocar interações, aumentando a chance de efeitos colaterais ou reduzindo a eficácia dos tratamentos.
Por isso, o cuidado não depende só do médico. Nem sempre é possível ter acesso a tudo o que o paciente usa, principalmente quando há automedicação. Informar corretamente tudo que se está em uso é uma atitude simples, mas que faz muita diferença na segurança do tratamento.
A medicina conhece bem os riscos que envolvem interações medicamentosas. Como disse, uma substância pode anular, reduzir ou mesmo potencializar os efeitos de outra, tornando seu uso ineficaz ou até mesmo perigoso. Frequentemente nos deparamos com pacientes idosos que sofrem intoxicações ou efeitos colaterais indesejados, provocados por combinações inapropriadas.
Quando deparamos com esse cenário, a medida imediata é avaliar os medicamentos e suplementos em uso e a real necessidade de cada um - sendo por vezes necessária a interrupção ou substituição de alguns dos envolvidos.
É verdade que cada prescrição visa controlar um problema de saúde, mas o profissional geriatra é aquele que não perde o olhar sobre o paciente “por inteiro”. E sabe sobre o impacto e os riscos de cada medicamento sobre a saúde global da pessoa.
O objetivo não é reduzir o número de medicamentos em uso, mas garantir que cada um deles tenha uma indicação clara, segura e alinhada às necessidades do paciente. Quando bem indicados, revisados periodicamente e utilizados de forma correta, os medicamentos cumprem seu verdadeiro papel: melhorar a vida, preservar a funcionalidade e promover vitalidade. Mais do que tratar doenças, trata-se de cuidar da pessoa como um todo, com estratégia, segurança e propósito.
* Médica geriatra, gerontóloga e fisioterapeuta