Fernando Dizero Senise*
O Brasil consolidou-se, definitivamente, como um polo produtor de tecnologia inovadora. O sucesso do Pix - simples, rápido e inclusivo - é a prova tangível disso. Sua expansão para Portugal não foi apenas uma exportação de software, mas a validação de uma solução robusta em um mercado exigente. O êxito deve-se à combinação de um produto maduro com uma necessidade clara: um sistema de pagamentos mais eficiente, acolhido por uma base significativa de brasileiros e por fluxos financeiros dinâmicos. A oportunidade estava presente e foi, podemos dizer, bem-identificada e aproveitada.
Esse caso simboliza uma tendência maior. Empresas de tecnologia brasileiras alcançaram a maturidade necessária para competir globalmente. Portugal emerge como a porta de entrada natural para a União Europeia: oferece estabilidade regulatória, afinidade cultural e uma posição estratégica privilegiada. Estabelecer-se no país significa reduzir custos e riscos, enquanto se ganha acesso direto a um mercado com cerca de 500 milhões de consumidores.
Contudo, internacionalização vai além da simples exportação. Não se trata de abandonar o mercado doméstico, mas de construir uma presença multicanal. É uma estratégia de expansão que amplia acesso a vendas, capital, talentos e clientes, fortalecendo, em paralelo, a operação local.
O acordo Mercosul-União Europeia, quando ratificado, redefinirá estruturalmente esse cenário. A redução de barreiras tarifárias, a harmonização regulatória e a proteção mútua de investimentos criarão um ambiente mais previsível e fluido. Para o setor de tecnologia, isso se traduzirá em maior facilidade para comercializar serviços, licenciar software, proteger propriedade intelectual e atrair investimentos cruzados.
Os fluxos de capital luso-brasileiros já dinamizam atualmente setores como fintechs, saúde, educação, logística, avião e energia. Uma integração comercial mais profunda, a partir do acordo Mercosul-União Europeia, certamente potencializará a escalada desses mercados, com maior confiabilidade e segurança jurídica.
Portugal, nesse contexto, já se afirma como um dos polos digitais mais vibrantes da Europa. A presença do Web Summit em Lisboa colocou o país no radar global de inovação, atraindo startups, fundos de venture capital e gigantes da tecnologia. Este ecossistema oferece um terreno fértil para empresas brasileiras testarem produtos, captarem investimento e integrarem-se rapidamente às redes europeias de inovação. Enfim, avançarem para novos mercados.
Para empresas que miram a expansão, o caminho está desenhado: do Brasil para Portugal, estruturando uma base local que sirva de hub europeu; de Portugal para o Brasil, aproveitando a escala e a agitação do mercado. Em ambos os sentidos, governança corporativa rigorosa, conformidade com a proteção de dados e planejamento fiscal estratégico são pilares decisivos.
A minha mensagem às lideranças empresariais é simples e direta: internacionalizar deixou de ser um plano distante para se tornar uma alavanca imediata de crescimento sustentável e de longo prazo. Quem agir com visão e agilidade estará na vanguarda desse movimento. Internacionalizar não é apenas uma possibilidade, mas sim, é uma necessidade estratégica de sobrevivência das empresas. O momento é agora!
*Advogado e sócio do escritório Brasil Salomão em Portugal