Quando a política se alimenta da pulsão de morte

Publicado em 03/10/2026 às 06:00.

René Dentz*

O pensamento de Freud representa mais incômodo do que costumamos admitir. Quando formulou a hipótese da pulsão de morte, especialmente em Além do princípio do prazer, não estava simplesmente falando de um desejo de morrer, mas percebendo no humano uma força de desligamento, repetição e destruição, uma tendência silenciosa que trabalha contra os vínculos construídos por Eros e revela que a vida não deseja apenas conservar-se, porque carrega consigo aquilo que desfaz, rompe, agride e insiste em repetir, mesmo quando essa repetição produz sofrimento.

Um século depois, a pulsão de morte ultrapassa os limites da clínica e se apresenta como uma chave perturbadora para interpretar nossa vida social e política, sobretudo quando observamos sociedades que conhecem perfeitamente as consequências destrutivas de suas escolhas e, ainda assim, parecem incapazes de interrompê-las.

Sabemos que a desigualdade produz violência, que a humilhação alimenta ressentimentos, que a destruição ambiental cobra seu preço, que o excesso de trabalho adoece, que as redes sociais potencializam a agressividade e que transformar adversários em inimigos corrói qualquer possibilidade de comunidade, mas continuamos repetindo as mesmas estruturas, como se conhecer o abismo não fosse suficiente para impedir nossa caminhada em sua direção. A pulsão de morte não precisa desejar conscientemente a catástrofe, basta que opere nessa estranha incapacidade de interromper aquilo que sabemos destrutivo, nesse movimento em que uma sociedade reconhece sua própria ferida e, em vez de tratá-la, retorna continuamente ao gesto que a produz.

A política contemporânea compreendeu muito bem a rentabilidade do ressentimento, porque governar afetos torna-se mais simples quando se fabrica um inimigo e alguém pode ser responsabilizado por nossa frustração, nosso medo, nossa precariedade ou nossa sensação de abandono. O outro deixa então de ocupar o lugar legítimo do adversário e passa a representar uma ameaça, de modo que já não desejamos discutir com ele, compreender suas razões ou disputar projetos de sociedade, mas derrotá-lo, expulsá-lo, silenciá-lo, ridicularizá-lo, como se a existência daquele que pensa diferente impedisse a nossa própria existência. A democracia pode continuar formalmente de pé enquanto sua substância se deteriora lentamente, porque nenhuma experiência democrática resiste por muito tempo quando parcelas da sociedade passam a desejar o desaparecimento simbólico umas das outras.

É nesse ponto que Freud encontra a teoria crítica, pois o progresso técnico não nos tornou necessariamente menos bárbaros, apenas tornou mais sofisticadas, velozes e rentáveis algumas formas de barbárie. A violência circula agora embalada por algoritmos, slogans, memes e vídeos de poucos segundos, enquanto a própria política se converte em mercadoria destinada ao consumo imediato: indignamo-nos pela manhã, odiamos ao meio-dia e encontramos um novo inimigo antes do anoitecer, num circuito em que o ressentimento produz audiência, engajamento, votos e dinheiro, enquanto a serenidade, a reflexão e a complexidade parecem cada vez menos rentáveis.

A pulsão de morte se manifesta justamente nesse prazer ligado à destruição, não somente quando alguém mata ou agride fisicamente, mas quando destruir simbolicamente o outro produz satisfação, quando uma humilhação pública diverte, quando a miséria do adversário provoca alegria, quando a morte de desconhecidos se transforma em estatística conveniente, quando guerras são acompanhadas como partidas de futebol e crianças soterradas passam a funcionar como argumentos dentro de disputas ideológicas. O algoritmo desconhece luto, compaixão ou silêncio diante da morte, pois uma tragédia, uma propaganda e uma piada disputam exatamente o mesmo espaço, nossa atenção, e o sofrimento humano termina submetido à mesma lógica de circulação de qualquer outra mercadoria.

Essa violência não permanece apenas no espaço público, porque aprendemos a carregá-la para dentro de nós mesmos, trabalhando até adoecer e chamando isso de mérito, consumindo para preencher o vazio produzido pelo próprio consumo, correndo cada vez mais depressa sem conseguir responder para onde estamos indo. Podemos perceber uma dimensão importante dessa mutação ao atestarmos como o sujeito contemporâneo já não precisa apenas ser explorado por outro, pois aprendeu a explorar a si mesmo, transformando liberdade em desempenho, cansaço em virtude e esgotamento em sinal de sucesso, como se até a pulsão de morte tivesse encontrado uma maneira de se tornar produtiva.

Freud, contudo, colocou Eros diante dessa força destrutiva, não como promessa ingênua de reconciliação, mas como potência capaz de ligar aquilo que a destruição separa, produzindo vínculos, reconhecimento e comunidade. É precisamente disso que a política deveria cuidar, não da fabricação incessante de inimigos, mas da difícil construção de um mundo comum no qual pessoas profundamente diferentes consigam continuar vivendo juntas sem precisar desejar a eliminação umas das outras.

Porque uma sociedade começa a morrer muito antes de seus corpos morrerem, começa a morrer quando o sofrimento do outro já não interrompe nada em nós, quando a crueldade se torna entretenimento, a indiferença se apresenta como lucidez e o ódio passa a funcionar como projeto político. A pulsão de morte insiste na repetição da destruição; uma política digna desse nome começa justamente onde somos capazes de interrompê-la.

* Psicanalista, Pós-Doc pela Freiburg Universität, na Suíça, Professor de Filosofia da PUC-Minas, Autor finalista do Jabuti Acadêmico 2025, Comentarista da Rádio Itatiaia e Pai da Sofia e da Beatriz

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