Mauro Condé*
Naquele dia... cansados de ver o velho avô... que já tinha muita idade... tremer as mãos e deixar a comida cair da boca quando estavam à mesa... filho e nora irritados decidiram tomar uma atitude.
No dia seguinte... o filho do velho apareceu em casa com uma tigela de madeira.
E ordenou ao pai que... a partir dali... passasse a comer sentado na soleira da porta... para sujar menos e ser mais fácil de limpar e não mais irritar a nora cansada de limpar tantas toalhas e guardanapos sujos pelo velho.
E assim foi... dia após dia... tremendo e sozinho na soleira da porta... o velho levava a comida à boca... conforme lhe era possível... metade perdia-se pelo caminho... uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo abaixo e só muito pouco descia pelo canal da sopa.
O neto... de oito anos... olhava tudo... silenciosa e atentamente... como se não tivesse nada a ver com o caso.
Até que uma tarde... ao regressar do trabalho... o pai flagra o filho a trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e pergunta:
- Que estás a fazer?
O filho... sem levantar a vista da operação responde:
- Estou a fazer uma tigela para quando o pai for tão velho como o avô e com as mãos tremendo... o mandarem comer na porta da soleira.
Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento usando como meio de transporte excelentes livros de escritores que venceram o Prêmio Nobel.
Eles me levaram para uma um país indeterminado... onde fui recebido pelo escritor José Saramago... a quem fui logo pedindo:
Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.
- O sentido da vida não está em escapar da morte... está em viver de um modo que... quando ela vier... encontre alguém que realmente esteve vivo.
O trecho da família citado acima foi extraído do livraço “As Intermitências da Morte”, de Saramago, que acabo de ler e te recomendo.
Num país sem nome... a morte decide suspender o seu ofício: ninguém mais morre.
O que parece bênção revela-se desastre social... político e moral.
Entre cartas lilases e estratégias humanas para contornar o inevitável... a própria morte se aproxima de um homem e... ao conhecê-lo... descobre a hesitação.
No fim... percebe-se que viver eternamente é menos humano do que amar sabendo que se há de morrer.
* Palestrante, consultor e fundador do Blog do Maluco.
