Se a morte entrasse em greve amanhã… o que você faria diferente hoje?

Publicado em 28/02/2026 às 06:00.

Mauro Condé*


“A morte é apenas a curva da estrada.”... Fernando Pessoa

Naquele dia... cansados de ver o velho avô... que já tinha muita idade... tremer as mãos e deixar a comida cair da boca quando estavam à mesa... filho e nora irritados decidiram tomar uma atitude.

No dia seguinte... o filho do velho apareceu em casa com uma tigela de madeira.

E ordenou ao pai que... a partir dali... passasse a comer sentado na soleira da porta... para sujar menos e ser mais fácil de limpar e não mais irritar a nora cansada de limpar tantas toalhas e guardanapos sujos pelo velho.

E assim foi... dia após dia... tremendo e sozinho na soleira da porta... o velho levava a comida à boca... conforme lhe era possível... metade perdia-se pelo caminho... uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo abaixo e só muito pouco descia pelo canal da sopa.

O neto... de oito anos... olhava tudo... silenciosa e atentamente... como se não tivesse nada a ver com o caso.

Até que uma tarde... ao regressar do trabalho... o pai flagra o filho a trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e pergunta:

- Que estás a fazer?

O filho... sem levantar a vista da operação responde:

- Estou a fazer uma tigela para quando o pai for tão velho como o avô e com as mãos tremendo... o mandarem comer na porta da soleira.

Acabo de voltar de uma viagem rumo ao conhecimento usando como meio de transporte excelentes livros de escritores que venceram o Prêmio Nobel.

Eles me levaram para uma um país indeterminado... onde fui recebido pelo escritor José Saramago... a quem fui logo pedindo:

Ensina-me algo que eu ainda não saiba e tenha o poder de mudar a minha vida para melhor.

- O sentido da vida não está em escapar da morte... está em viver de um modo que... quando ela vier... encontre alguém que realmente esteve vivo.

O trecho da família citado acima foi extraído do livraço “As Intermitências da Morte”, de Saramago, que acabo de ler e te recomendo.

Num país sem nome... a morte decide suspender o seu ofício: ninguém mais morre.

O que parece bênção revela-se desastre social... político e moral.

Entre cartas lilases e estratégias humanas para contornar o inevitável... a própria morte se aproxima de um homem e... ao conhecê-lo... descobre a hesitação.

No fim... percebe-se que viver eternamente é menos humano do que amar sabendo que se há de morrer.

* Palestrante, consultor e fundador do Blog do Maluco.

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