Fabio Alonso*

O debate sobre segurança pública no Brasil costuma ser dominado por discussões sobre policiamento, operações ostensivas e endurecimento das leis. No entanto, existe uma etapa fundamental para o combate à criminalidade que frequentemente permanece distante dos holofotes, a investigação técnico-científica.
Em um estado como o Rio de Janeiro, marcado por décadas de violência urbana, confrontos armados, atuação de facções criminosas e expansão das milícias, o trabalho da perícia criminal tornou-se uma das principais ferramentas para a busca da verdade e para a responsabilização dos autores de crimes.
A experiência acumulada ao longo de décadas por profissionais que atuaram na linha de frente das investigações revela uma realidade complexa, marcada por desafios que vão muito além da criminalidade em si. Em regiões como Niterói, São Gonçalo, Baixada Fluminense e toda a Região Metropolitana do Rio, peritos e investigadores frequentemente precisaram desenvolver seu trabalho em cenários de extrema tensão, muitas vezes sob risco iminente de confrontos armados.
Ao longo das últimas décadas, o Rio de Janeiro registrou alguns dos episódios criminais mais emblemáticos do país. Casos envolvendo lideranças religiosas, autoridades do Judiciário, vítimas de violência policial, organizações criminosas e milícias expuseram a complexidade da violência fluminense e a necessidade de investigações cada vez mais sofisticadas. Em todas essas situações, a ciência forense desempenhou papel decisivo na reconstrução dos acontecimentos.
Apesar da importância estratégica da atividade pericial, a realidade enfrentada por muitos profissionais ainda é marcada por limitações estruturais. Falta de recursos, equipamentos insuficientes e restrições orçamentárias continuam sendo obstáculos presentes em diversos órgãos de investigação. Relatos de servidores que precisaram improvisar soluções para garantir o funcionamento de setores essenciais demonstram como a capacidade técnica frequentemente supera as condições oferecidas pelo poder público.
Em áreas dominadas por grupos armados, muitas vezes os peritos precisam ingressar em territórios instáveis, onde a coleta de evidências ocorre sob pressão e com riscos à integridade física das equipes. Nessas circunstâncias, a produção da prova técnica torna-se uma atividade que exige não apenas conhecimento científico, mas também coragem e comprometimento institucional.
Além da atuação operacional, a evolução tecnológica vem transformando a investigação criminal. Áreas como biologia molecular, toxicologia forense, genética e análise laboratorial ampliaram significativamente a capacidade do Estado de solucionar crimes e produzir provas robustas. O investimento em ciência aplicada à segurança pública passou a ser um dos fatores mais relevantes para aumentar a eficiência das investigações e fortalecer o sistema de Justiça.
Em um cenário de violência persistente, a valorização da perícia criminal representa uma necessidade estratégica. O enfrentamento da criminalidade não depende apenas de ações repressivas, mas também da capacidade de produzir conhecimento, preservar evidências e garantir que a verdade dos fatos prevaleça. Em última análise, a ciência forense não apenas auxilia na resolução de crimes, ela fortalece as instituições democráticas e contribui para que a justiça seja construída sobre provas, e não sobre suposições.
* Perito-Chefe aposentado da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ); Ph.D. em Bioquímica e Pós-Doutorado em Virologia. Escritor e autor de “Rastros de Sangue: Memórias de um Perito nas Ruas do Rio de Janeiro”