Sobre espinhos escrevo

Publicado em 01/06/2026 às 06:00.

Andreia Donadon Leal*


Há muito tempo escrevi sobre infertilidade. Ultimamente, tenho me sentido infértil para rabiscar minhas crônicas. Os assuntos pipocam diariamente nas redes sociais: viralizam e, em seguida, são esquecidos no calor de uma nova polêmica, desde pronunciamento imprudente sobre o Bolsa Família a crimes que chocam a sociedade.

Estamos em ano eleitoral, prezados leitores. Sim, ano eleitoral é conturbado, porque quem está dentro não quer sair, quem está fora quer entrar. Só de pensar nisso, meu estômago começa a dar reviravoltas; cada um dos grupos em disputa deixará de apresentar propostas de melhorias, para se ocupar em destruir a reputação e a história do outro.

A boa política oferece ao cidadão serviços públicos de excelência. Usa o dinheiro e os interesses públicos, para o bem-estar de todos, independentemente das escolhas partidárias de cada um.

Sejam bem-vindos a ataques de todos os lados: da direita, da esquerda e do centro. Sejam bem-vindos ao bate-boca nas redes sociais e às disputas acirradas de pessoas que não respeitam a liberdade de adesão (ou não) a tendências ideológicas, que definem programas partidários. Não deveria ser assim; não deveria haver um desejo de ter mais razão do que o outro, tentando impor que seu candidato é o melhor. O período eleitoral deveria ser um tempo de ampla pesquisa por parte dos eleitores, analisando a atuação dos candidatos, seus currículos, biografias, feitos e projetos apresentados.

A questão é que nossa cultura nos leva a crer que é possível separar o joio do trigo. Quem é joio e quem é trigo na ceara política? A cada dia, um novo escândalo surge, e o campo que era de trigo no anoitecer, torna-se de joio no amanhecer seguinte.

O Brasil já caiu várias vezes na armadilha do salvador da pátria – vassourinha, caçador de marajás, repelente de comunistas; mas todos se revelaram falsos profetas.

Faço de conta, às vezes, que haverá alguém que respeitará a multiplicidade de opiniões, vozes, pessoas, religiões, gêneros e a diversidade da vida. Acredito, mesmo com as frustrações, que teremos um representante do qual poderemos nos orgulhar; alguém que represente as múltiplas vozes: mulheres, homens, crianças, pessoas trans, sem discriminação e que consiga quebrar a barreira, quase intransponível do deus mercado, aquela deidade gerenciada por banqueiros, com representações nas bancadas do Congresso Nacional, que impede a derrubada dos índices de desigualdade social, e que convence até a pobres que políticas sociais é passar a mão na cabeça de vagabundos.

Estou, evidentemente, infértil para falar sobre eleições! Há tanto que escrever e discutir: sobre o tempo que esfriou, sobre a música da vizinhança que dá gosto de ouvir, sobre a menina que atravessou a rua de mãos dadas com a avó, sobre meu projeto de caçar joaninhas no jardim, sobre o vizinho que não vejo há anos, sobre o desaparecimento dos latidos do cachorrinho da casa vizinha, sobre o frio que lamuriou debaixo da porta do meu quarto, sobre o pouso do beija-flor, sobre o pedaço de bolo que comi nos parabéns de uma colega de profissão, sobre o colar de cerâmica que ganhei da linda amiga Vitória, sobre a foto que postei no Story com meu Jotinha, sobre o vídeo abrindo meu forno de cerâmica…

Mas isso fica para depois. Por enquanto, não consigo ver a rosa desabrochada. Só vejo os espinhos do caule torto; é sobre espinhos que escrevo.
 
*Mestre em Literatura e Dra. em Educação 

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