Transtornos mentais seguem como problema estrutural e crescente no Brasil

Ângela Mathylde Soares
Publicado em 20/01/2026 às 07:30.

O primeiro mês do ano é associado à ideia de recomeço, reorganização da vida e renovação de expectativas. No entanto, para milhões de brasileiros, esse período não representa esperança, mas exaustão emocional, frustração e adoecimento psíquico. É nesse cenário que a campanha “Janeiro Branco” precisa ser compreendida. Não se trata de uma ação simbólica, mas um chamado urgente à reflexão coletiva sobre a forma como o Brasil tem lidado – ou negligenciado – a saúde mental da população. Os números são alarmantes e não podem mais ser relativizados. 


Os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam o Brasil com a maior prevalência de transtornos de ansiedade no mundo, com cerca de 18 milhões de pessoas diagnosticadas, liderando ainda os índices de depressão na América Latina e entre os cinco países mais afetados globalmente. Ainda assim, os números não revelam a dimensão do problema, vez que o subdiagnóstico, o acesso desigual aos serviços e o estigma social seguem invisibilizando grande parte do sofrimento psíquico.

Durante décadas, a saúde mental ocupou um lugar marginal nas políticas públicas, na educação e até na formação profissional. A herança manicomial, marcada por exclusão, violência institucional e desumanização, construiu uma cultura de medo e silêncio em torno do sofrimento psíquico. Embora o país tenha avançado com a Reforma Psiquiátrica, o imaginário social ainda associa o cuidado mental à fraqueza, à incapacidade ou à “loucura”, retardando a busca por ajuda e agravando quadros que poderiam ser tratados precocemente.

Do ponto de vista neurocientífico, sabe-se que os transtornos mentais não são escolhas individuais e nem falhas morais. A condição envolve alterações reais no funcionamento cerebral, especialmente, entre os sistemas responsáveis pela regulação emocional, resposta ao estresse, memória, atenção e tomada de decisões. A rotina é de hiper exigência, insegurança econômica, vínculos fragilizados, excesso de estímulos digitais e ausência de políticas preventivas, ou seja, ambiente altamente adoecedor para o sistema nervoso.

O cérebro passa a operar em modo de sobrevivência em situações de estresse crônico. A amígdala é responsável pela detecção de ameaças e se torna hiperativa, interpretando estímulos cotidianos como perigos reais. O estado de alerta contínuo ativa o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, causando liberação excessiva de cortisol. Quando esse processo se prolonga, o excesso do hormônio do estresse compromete o hipocampo, região fundamental para a memória, aprendizagem e regulação emocional, resultando em esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração e fadiga mental persistente.

Ao mesmo tempo, é reduzida a atividade do córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, autocontrole, empatia e tomada de decisões. A situação explica por que pessoas em sofrimento psíquico apresentam impulsividade, rigidez cognitiva, dificuldade de resolver problemas e sensação constante de perda de controle. Na prática, o sistema emocional “grita”, enquanto o sistema racional perde a capacidade de mediação.

A depressão provoca redução da plasticidade neural e alterações nos sistemas de neurotransmissores, como serotonina, dopamina e noradrenalina, afetando diretamente o humor, a motivação, o prazer e a percepção de futuro. Já nos transtornos de ansiedade, a comunicação disfuncional entre amígdala e córtex pré-frontal mantém o organismo em estado de alerta permanente, gerando sintomas físicos, como taquicardia, sudorese, tensão muscular, insônia e dores sem causa orgânica aparente.

O burnout é cada vez mais frequente entre trabalhadores da saúde, educação e áreas de alta demanda e não é simples cansaço. Trata-se de um quadro de exaustão neurofisiológica, em que o cérebro perde a capacidade de alternar entre esforço e recuperação. A motivação diminui, a memória de trabalho falha e o sistema de recompensa deixa de responder adequadamente, levando à apatia, irritabilidade e sensação de vazio.

O adoecimento cerebral impacta a vida social e produtiva da população. As estatísticas da Previdência Social indicam que, em 2024, os transtornos mentais representaram 472.328 afastamentos do trabalho, uma elevação de 68%, em relação ao ano anterior. Trata-se de um problema estrutural, afetando não apenas o indivíduo, mas a economia, as relações de trabalho e o tecido social.

Apesar dessa gravidade, o governo ainda atua de forma reativa, majoritariamente, tratando o adoecimento, quando já está instalado, em vez de investir em prevenção, psicoeducação e intervenção precoce. Reconhecer sinais, compreender o funcionamento do cérebro e buscar acompanhamento especializado não pode ser privilégio de poucos, mas um direito garantido.

O Sistema Único de Saúde (SUS), através da Rede de Atenção Psicossocial, cumpre papel fundamental, embora enfrente desafios, como o subfinanciamento, alta demanda e escassez de profissionais. As iniciativas como o Programa Entrelaçar, da Prefeitura de Belo Horizonte, focado no atendimento de pessoas autistas e à ampliação do acesso multiprofissional, demonstram avanços possíveis com compromisso técnico e político.

A incorporação efetiva das Neurociências às políticas públicas, à educação e à saúde é um caminho sem retorno. Compreender como o cérebro responde ao estresse, ao trauma, às experiências adversas e às relações sociais permite intervenções mais éticas, humanizadas e eficazes, rompendo com modelos reducionistas e meramente medicalizantes.

O Janeiro Branco não é apenas mais uma campanha no calendário. Cuidar da saúde mental é, literalmente, cuidar do cérebro. Não se trata de pensamento positivo, entretanto, de focar na criação de condições biológicas, emocionais e sociais para o sistema nervoso sair do modo de sobrevivência e retornar ao modo de desenvolvimento, aprendizagem e vínculo. Enquanto se insistir em silenciar o sofrimento psíquico, seguirá o adoecimento em massa. Falar de saúde mental é uma exigência científica, social e ética — e uma responsabilidade coletiva que não pode mais ser adiada.

(*) Ângela Mathylde Soares é Neurocientista, psicanalista e psicopedagoga

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