Não foi terminar o mestrado em 15 meses. Nem concluir um doutorado aos 29 anos. Ou ser aprovado em um concurso público concorrendo com outras 87 pessoas, sem sequer ter um doutorado.
A coisa mais difícil que fiz não foi mudar de país. Ou voltar depois de ter mudado.
Não foi fazer outra graduação. E depois outra.
Nem ingressar em um segundo doutorado.
De longe, também não foi terminar um casamento de sete anos porque eu havia me apaixonado, pela primeira vez na vida, por alguém.
Na verdade, essa foi até fácil.
A coisa mais difícil que fiz também não foi enterrar a minha mãe.
Apesar do ódio. Da indignação. Porque MÃES NÃO DEVERIAM MORRER NUNCA!
Muito menos aos 42 anos.
Ainda dói lembrar.
Mas essa perda envolve outras estruturas.
Então, o que seria a coisa mais difícil para mim?
O que foi?
Foi?
Não sei.
Se foi.
Se era.
Ou se ainda é.
Por Deus, eu adoraria saber.
Costumo brincar com meus alunos que a terceira coisa mais perigosa que fiz na vida foi, ainda na Tailândia, tirar uma foto com uma píton enrolada no meu pescoço.
Gelada.
Musculosa.
Letal.
E lá estava eu, sorrindo em sua companhia.
A segunda foi entrar na jaula de um tigre de quase três metros, no Tiger Kingdom, e me sentar ao lado dele para uma fotografia.
Feliz.
Tenso.
Mas a primeira e mais perigosa de todas sempre faz meus alunos suspirarem e sorrirem.
E eu nunca entendo exatamente o porquê.
Deve ser falta de experiência de vida deles.
A primeira e mais perigosa foi, sem dúvidas, me apaixonar.
Muito mais perigosa do que colocar uma píton enrolada no pescoço ou entrar na jaula de um tigre de quase três metros.
Eu me apaixonei.
Flutuei.
Fui para as nuvens.
E, quando a gravidade me deu um toque, despenquei e rachei a cara e o coração em pedacinhos que até hoje procuro.
Mas, mesmo em queda livre, eu acreditei nas melhores partes do que vi lá de cima.
Não gostei dos espetos que furaram a minha nuvem.
Lógico que não.
Mas entendi que, naquele momento, começava o processo que findava a paixão.
Preciso te dizer uma coisa:
P-A-I-X-Ã-O: a droga mais pesada que experimentei até hoje.
Dizem que PODER é pior.
Que ele muda as pessoas.
Que, de repente, alguém que você conhecia passa a fazer coisas que jamais imaginou que seria capaz de fazer.
Como nunca experimentei, não saberia dizer.
Mas paixão é democrática. Ela destrói qualquer senso de realidade ou de bom juízo.
A paixão nos faz amar coisas que não existem.
Ou enxergar apenas as partes que queremos ver.
E, quando os efeitos dela começam a passar, seja pela gravidade ou pelo tempo, é aí que você descobre o que é amar, se decidir ficar.
Porque apaixonar-se é fácil. Especialmente por uma versão de alguém que construímos antes mesmo de conhecê-la por inteiro.
Às vezes basta uma conversa.
Um olhar que te derruba da esteira da academia.
Mas amar é outra coisa.
É continuar olhando depois que as nuvens desaparecem.
É descobrir que a pessoa que você ama não é apenas aquela que viu lá de cima.
É também aquela outra que encontrou quando chegou caiu no chão.
Com seus vazios.
Suas ausências.
Suas contradições.
Suas impossibilidades.
E, ainda assim, escolher cultivar o amor.
Amar alguém capaz de tudo e, ao mesmo tempo, ser incapaz de fazer as mesmas coisas.
Amar e se encontrar.
Se perder.
Se reencontrar.
Drummond escreveu sobre “amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um chão vazio.”
Escreveu sobre “o peito inerte, a rua vista em sonho e uma ave de rapina...”
E eu acho que isso é a coisa mais difícil que fiz na vida.
A mais difícil que continuo fazendo.
Porque amar alguém não é amar apenas aquilo que nos encanta.
É aprender a amar também aquilo que não compreendemos.
Que não podemos mudar.
É olhar para a concha vazia que, às vezes, sobra depois de um tsunami e ainda encostar a orelha nela, tentando ouvir com o coração aquilo que o mar não conseguiu levar.
Depois, com medo e paciência, continuar procurando por esperança.
Drummond não me ensinou a “Amar a minha falta mesma de amor.
Ou, na secura desses dias, amar a água implícita, o beijo tácito e a sede infinita...”
Infelizmente.
Ainda tento entender.
Apaixonar-se foi a coisa mais perigosa que fiz na vida.
Mas amar alguém continua sendo a mais difícil.