Qual é a função da escola para além de ensinar, educar e todos os sinônimos dessa mesma premissa?
Convenhamos: todas as escolas ao redor do mundo, sejam elas escolas regulares, dessas para as quais vamos ou mandamos nossas crianças, ou instituições que oferecem cursos livres, têm o objetivo de ensinar alguma coisa. Conteúdos acadêmicos, artes, culinária, esportes, tecnologia… A lista é tão diversificada quanto os campos do conhecimento que alguém pode querer ou precisar aprender.
Mas e fora tudo isso?
Para que serve a escola?
Será que ela serve para mais alguma outra coisa?
Vamos fazer um exercício simples?
Pense em uma escola pública do seu bairro atual, do bairro em que você cresceu, próxima ao lugar onde você trabalha ou por onde passa todos os dias. Liste três funções da escola que não estejam ligadas diretamente às aprendizagens que citei acima.
Por que as crianças e estudantes são enviados para esse lugar?
Pronto?
Deu tempo?
Pois bem.
Essas razões pelas quais alguém vai para a escola, pelo menos algumas delas, não deveriam ser garantidas pelo Estado para todas as pessoas, independentemente de onde elas estivessem?
Algum dos motivos que você listou tem relação com alimentação? Segurança? Proteção? Socialização? Cuidado? Supervisão? Acesso à internet? Um lugar minimamente confortável para existir durante parte do dia?
Pode ser justamente aí que a conversa comece a ficar mais interessante.
Caminhando para o trabalho, dia desses, ouvi dois meninos com uniforme de uma escola municipal, aflitos, aguardando o semáforo fechar para atravessar a avenida.
“Nós vamos perder a merenda, mano.”
“Vamos não, sô! Vai dar tempo!” O outro respondeu segurando as duas alças da mochila, com um olhar aflito.
Quando o sinal ficou verde, os dois correram como se estivessem em uma maratona em direção à escola do outro lado da avenida.
Fiquei com essa cena na cabeça.
Fui imediatamente transportado para a mesma angústia de quando tinha 12 anos e, na sexta série, já não conseguia mais prestar atenção na aula por volta das 15h20, porque o recreio começaria em dez minutos e a fila já começaria a se formar na porta da cantina. Alguns professores liberavam os alunos mais cedo. Outros não.
Minha fome era de quem, às vezes, não tinha almoçado antes de ir para a escola. Ou pior: de quem até aquele horário ainda não tinha comido nada, porque nem sempre havia café da manhã em casa ou almoço. Na verdade, quase nunca havia.
Minha mãe saía muito cedo para trabalhar e nem sempre existia algo para preparar. Então a escola também era esse lugar onde a minha alimentação era garantida e se tornava fundamental para mim.
Imagino que fosse para muitos dos meus colegas de sala também.
Hoje, anos depois, os papéis se inverteram.
Sou eu o professor que libera os alunos dez minutos antes para eles correrem para o refeitório.
O turno da manhã no Cefet termina às 12h40 e as aulas retornam às 13h15. Então, por volta de 12h20 ou 12h30, já vou encerrando as atividades, passando tarefas, avisos e orientações, enquanto observo aquele alívio silencioso de quem está com fome.
Ontem, especialmente, essa fome rugiu alto.
Duas alunas começaram a rir.
“Ai amiga, tô com tanta fome que meu estômago está doendo.”
“Hahaha, eu ouvi!”
“Mas sério mesmo… tô com muita fome. Não tô conseguindo nem pensar.”
Escutei aquilo tudo e lembrei imediatamente de mim mesmo quando fui para uma escola estadual que não oferecia merenda.
Que sofrimento.
Com 15 ou 16 anos, eu comeria qualquer coisa. Pipoca aritana doce, chips, salgadinho de milho, pimentinha… ou mordia a borracha do lápis quando não tinha dinheiro para comprar nada.
A lembrança veio inteira às 09h12 da manhã.
Saí da sala por um instante.
Voltei com dois pães de queijo e entreguei um para cada menina.
“Ai professor… que lindo! Muito obrigada!”
“Ai professor, você fez a Manu chorar…”
“Não precisa chorar”, foi tudo que respondi. “Vocês merecem estar bem. Alimentadas. Seguras. Tranquilas para conseguir aprender.”
Talvez a escola revele uma de suas funções mais profundas. Antes de ensinar fórmulas, datas históricas ou regras gramaticais, ela também ensina cuidado, solidariedade, atenção e afeto, coisas que nem sempre aparecem nos livros didáticos, mas que muitas vezes permanecem conosco para sempre. E, pode ser que nisso resida a possibilidade de alguém se sentir visto, acolhido e humano ali dentro.