Outro dia, conversando com alguém, ouvi uma frase que ficou martelando na minha cabeça: “A gente não tem controle de nada”. Fiquei ruminando isso por dias. E sabe o que me veio à cabeça primeiro? O controle remoto. Sim, aquele que sempre desaparece atrás do sofá ou escorrega para o canto da cama.
Curiosamente, o primeiro controle remoto de TV foi inventado, em 1950, pela Zenith Radio Corporation. Ou seja, o desejo de controlar as coisas, mesmo à distância, não é de hoje. Mas o que isso revela sobre nós? Que a humanidade sempre teve essa sede de controle? Talvez.
Quando olhamos para a natureza, os animais parecem não sofrer dessa angústia. Nunca vi um documentário mostrando uma anta tentando controlar o horário da janta dos filhotes. Se isso existe, passou batido no Globo Repórter ou na NatGeo. Ao menos, elas não parecem obcecadas com isso como nós.
Já entre os humanos, a história é outra. Tem marido querendo controlar a esposa. Mãe querendo ditar o corte de cabelo da filha. Irmãos que não dividem o videogame. Namorado que pega o celular da namorada “só pra ver uma coisa”. Mas… e se o controle, de fato, não existir?
Vivemos cercados de regras: normas sociais e leis. Mas basta olhar para os estudos sobre crime e desvio para perceber que nem tudo se encaixa. Há sempre quem fuja da linha. E mesmo presos, estão realmente sob controle? Ou só contidos? O que Michel Foucault diria?
Provavelmente, que o controle é mais sutil, e mais profundo, do que a gente imagina. Em Vigiar e Punir, ele mostra como a sociedade moderna trocou os castigos públicos pela vigilância constante. Não se controla mais só pelo medo da punição, mas pela sensação de estar sendo observado o tempo todo. E hoje, com algoritmos sabendo mais sobre a gente do que nossos amigos, será que ainda somos nós que seguramos o controle remoto da nossa vida?
A ideia de controle é complexa. Ela atravessa o corpo, molda comportamentos, silencia desejos, doma pensamentos. E nem sempre vem de fora, às vezes está tão enraizada que é a própria gente quem se vigia, se limita, se censura. Se for assim, quem está realmente livre?
E Deus controla tudo? Porque, se controlasse, invalidaria dois princípios fundamentais: o livre-arbítrio e a ideia de que o homem foi criado à sua imagem e semelhança. Logo, se o homem pode ser controlado, será que Deus também poderia?
E foi aí que percebi: perdi o controle da direção que essa reflexão estava tomando.
Controlar algo ou alguém é assumir uma responsabilidade enorme. Já parou pra pensar no peso que carrega um piloto de avião ou um operador de voo? Quem está no controle responde por tudo. E sejamos sinceros: às vezes já é difícil sermos responsáveis só por nós mesmos. Imagina ter que responder também pelos outros? Obrigado, mas eu passo.
Claro que não estou sugerindo que a gente viva de forma irresponsável, largando tudo e todos. Não é isso. Vamos só repensar essa obsessão por controle porque há coisas que não estão nas nossas mãos e, por isso, não dependem de nós... Graças a Deus.